12 de Agosto de 2022






ANDRÉ PINHEIRO

Direção de Qualidade


David Pescador contra a Marinha de Golias


Quem, durante os seus tempos de juventude, teve as suas noitadas em bares e discotecas terá seguramente encontrado ocasiões em que o segurança/porteiro à porta não deixou entrar, talvez porque não estaríamos como a roupinha da moda, ou porque o rácio homens-mulheres estava desiquilibrado (seja lá o que isso quer dizer). Pensávamos ter uma noite agradável naquele local, e de repente uma pessoa com uma tarefa vista como básica e de menor importância estraga tudo.



A o longo da vida teremos tido outros exemplos desta índole, em que pessoas a operar funções tidas como menores acabam por criar um impacto em toda uma organização.

O habitual é apercebermo-nos deste tipo de efeito quando resulta em consequências negativas, como o caso da discoteca, ou aquele funcionário das Finanças que parece fazer de propósito para nos atrapalhar a vida, ou aquele funcionário que regula o trânsito à volta de uma zona de obras na estrada e parece demorar mais tempo para nos deixar passar do que aconteceu com outros condutores.

Mas não tem que ser sempre assim. Todos temos o nosso papel, e naturalmente há hierarquias diferentes, mas todas são importantes, todas são peças que fazem mover a engrenagem.

Numa visão mais “macro”, vejamos o que ocorreu no início de 2022, ao largo da Irlanda. Em Janeiro, a Rússia tinha planeada a realização de exercícios navais, a cerca de 150km ao largo da costa leste irlandesa.


Mas muitos analistas previam que estes não fossem “simples” exercícios navais, muitas vezes utilizados não apenas para treino das forças armadas, mas também para demonstrar o poderio militar do país. Pensava-se que a Rússia poderia estar a preparar-se para uma ação física que atrapalharia durante algum tempo as comunicações em toda a europa, e principalmente entre a Europa e os Estados Unidos: o corte de cabos submarinos de comunicações.

Embora muita gente pense que hoje em dia as comunicações entre continentes são realizadas via satélite, a verdade é que ainda são suportadas por cabos, que percorrem o fundo do mar entre continentes. Existem vários entre o norte da Europa e o norte dos Estados Unidos, mas também alguns que ligam a Europa e a América do Sul, e que inclusive têm terminais em Portugal, como em Carcavelos e em Sines, e ainda outros que ligam diretamente África à América do Sul. Estes cabos são vitais para assegurar comunicações de qualidade entre os países, e para muito mais do que simples consultas na internet, afinal hoje em dia tudo está ligado em rede!




As consequências do corte do principal cabo de comunicação entre a Europa e os Estados Unidos seriam muito graves para a economia mundial, pelo menos até ser encontrada uma solução de recurso. Foram tentadas soluções diplomáticas para alterar a zona dos exercícios mas sem solução.

Mas quando os pescadores da zona do sudoeste irlandês, nomeadamente da zona de Castletownbere souberam da realização destes exercícios, perceberam que iriam ocorrer na sua zona de pesca. E fizeram-se ouvir. Quais gauleses irredutíveis, enfrentaram o poderio da marinha russa e deixaram clara a indicação que iriam manter a sua atividade piscatória naquela zona, com ou sem navios de guerra pelo meio.

Isto seria um perigo tremendo, e face à manutenção da postura confrontacional dos pescadores, o embaixador da Rússia deslocou-se à zona para tentar negociar com a comunidade local. Nem assim os pescadores desistiram, pelo que, para evitar problemas maiores com um país membro da NATO, a Rússia acabou por cancelar os exercícios navais. Passadas apenas algumas semanas, a 24 de 




Fevereiro, a Rússia invade a Ucrânia para uma guerra que, à data de escrita deste artigo, infelizmente parece não ter fim à vista.

Provavelmente nunca saberemos se a Rússia pretendia mesmo causar o caos nas comunicações mundiais com o corte dos cabos submarinos, mas a valentia da pequena comunidade piscatória do leste da Irlanda será recordada pela forma como enfrentou a poderosa marinha russa num braço de ferro, e saiu vencedora, como David contra Golias.

Em muitas empresas recorre-se à “figura” do espelho para indicar a pessoa mais importante para garantir a qualidade do produto ou serviço ali produzido.






Todos temos o nosso papel, seja em que ponto da organização nos encontramos. E todos podemos fazer a diferença, para o melhor ou para o pior.




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