12 de Agosto de 2022





PEDRO AMENDOEIRA

Partner na Expense Reduction Analysts





As fadas e os factos











O nome de Sherlock Holmes evoca pensamento lógico profundo, baseado em premissas fortes. Como pode ter sido o seu autor, Arthur Conan Doyle, enganado por duas miúdas de 9 e 16 anos até ao final da sua vida?




E

m 1920 Conan Doyle publica um artigo, a que se seguiu um livro, demonstrando que existiam fadas. Como prova principal, apresentava fotos tiradas por duas inocentes crianças, Elsie e Frances, onde elas brincam com gnomos e fadas. Nesta altura da sua vida, com 61 anos, era mundialmente conhecido pela sua criação, graças à qual era um dos escritores mais bem pagos do mundo. Tinha sido agraciado com o título de Sir pelos seus feitos literários. Ao escrever o artigo e o livro, sabia que estava a apostar a sua reputação na veracidade das fotos. Ainda assim fê-lo, porque estava absolutamente convencido. Escreveu que as fotos iriam “marcar uma época no pensamento humano”.

Sessenta anos e muita controvérsia depois, as já idosas Elsie e Frances, confrontadas com provas concludentes, acabaram por admitir que tinham forjado as fotos de um modo bastante básico: desenhando em cartolina imagens que prenderam à vegetação com ganchos de cabelo. Para elas, tudo havia sido uma brincadeira.

Quando pessoas tão ilustres como Arthur Conan Doyle puseram a sua reputação em risco, não quiseram defraudá-los e foram mantendo o engano ao longo de décadas. Frances afirmou “Ainda não percebo como as pessoas se deixaram enganar. Elas queriam ser enganadas.”

Antes de sermos críticos a julgar a credulidade do famoso escritor, será bom refletir que um fenómeno similar acontece-nos a todos, provavelmente não com fadas, mas com qualquer outro evento em que queiramos acreditar. Quando assim é, encararemos como um facto qualquer fonte que corrobore aquilo que queremos acreditar, como falsidade tudo que o contrarie.

Nas empresas, estes “factos”

podem ser um fornecedor que é insubstituível, um forno que nunca pode ser desligado, ou um colaborador que tem mau feitio. Na nossa vida, podemos validar só as razões para um vizinho ser insuportável, um amigo leal ou uma criança perfeita.

Num mundo crescentemente polarizado, temos gente que acredita genuinamente que a terra é plana, que Trump ganhou as últimas eleições presidenciais ou que a Rússia apenas se defende da nazi Ucrânia. Valoriza ao estatuto de provas o que não o é, ignora seletivamente factos. Uma vez mais, não nos apressemos a julgar. Estou certo que, por mais que esteja atento a este fenómeno, também dele padecerei nalgumas opiniões que tenho. Não sei é quais. Como todos.




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