13 de Maio de 2022





PEDRO AMENDOEIRA

Partner na Expense Reduction Analysts





Uma raposa chamada inflação











Era uma vez um porquinho muito trabalhador e poupado. Todos os meses amealhava as notas que ganhava dentro do seu colchão, que cada vez ficava mais grosso.




I

nfelizmente, o porquinho tinha um sono muito pesado. Sabedora de ambos os factos, um dia a sua vizinha raposa entrou-lhe na casa e retirou algumas notas do colchão, substituindo-as por papel de jornal cortado. Porque o esquema resultou, passou a fazê-lo diariamente: assim que ouvia o porquinho ressonar, a raposa infiltrava-se na sua casa, substituía ainda mais algum do dinheiro por papel, deixando apenas o que estava mais próximo da abertura do colchão.

Cada dia o porquinho via o seu colchão mais grosso, adormecendo satisfeito, pensando ser rico. No entanto, graças à raposa, era cada dia mais pobre.

A raposa deste conto, no contexto atual, lembra o que talvez seja a maior ameaça que o nosso dinheiro enfrenta hoje: a inflação. Insidiosamente, este fenómeno cada dia nos retira mais valor à nossa riqueza, sem que nos julguemos mais pobres. Acresce que os governos nos embalam com canções de “é um fenómeno transitório”, o que nas condições atuais ninguém tem condições de saber se será ou não certo.



Os últimos meses têm sido pródigos em aumentos. A escalada começou em meados de 2021, sentida sobretudo pelas empresas, que começaram a ter de pagar mais por muitos dos seus fatores de produção (matérias-primas, transportes, energia). Em muitos casos esses aumentos superaram os 40%. Era inevitável que começassem a passar para os consumidores, o que já vemos acontecer e que não parece que possa ser travado.

Porque a maior parte das empresas não conseguiu numa primeira fase passar esses aumentos aos seus clientes, ao longo destes meses as empresas sentiram a raposa inflação a roer-lhes as margens. Desde o início deste ano tem sido bem mais notória a subida de preços no consumidor, ainda que sem chegar aos níveis a que as empresas estão já quase habituadas.

Como empresários, teremos de perceber onde estão as ameaças e oportunidades que uma realidade inflacionária aporta. Como melhor podemos alocar os recursos para pelo menos não perder, eventualmente ganhar. Será imperativo perceber ainda melhor o mercado e as oportunidades que nele se escondem. Nalgumas empresas ou setores de negócio será possível indexar os preços de venda a índices de mercado. Noutros a passagem terá de ser gradual, à medida dos movimentos da concorrência.


Viver, trabalhar, poupar e investir com inflação, é uma situação nova para a maior parte da nossa população ativa. Nunca vivemos assim. Não sabemos. Temo que tenhamos de aprender muito rapidamente. Felizmente, se há algo que temos como humanos é uma enorme capacidade de aprendizagem e adaptação. Estes dois anos foram uma prova evidente.

Um dia, o porquinho precisou de dinheiro e encontrou a sua reserva vazia. Como no conto, os porquinhos com um sono mais pesado correm o risco de empobrecer com a raposa inflação. Pode escolher as canções de embalar que alguns cantam e adormecer profundamente, pode também preparar-se para o caso da raposa inflação multiplicar as suas visitas. A escolha, no final, será sempre sua.




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