27 de Julho de 2021








VÍTOR BRIGA

Formador de Criatividade e Comunicação





MALTA – SABER PARAR











“Don´t play everything (or every time); let some things go by… 

What you dont’t play can be more importante than what you do.” 



Thelonious Monk




E

m 2007 concorri a uma bolsa da União Europeia para frequentar um curso de formação avançada no estrangeiro. Escolhi como destino Malta e o curso de “Pensamento Paralelo” na Fundação Edward de Bono. Fui cheio de expetativas para aprender o máximo possível, pois era uma oportunidade única para treinar na escola de um dos gigantes na área da criatividade.

Edward de Bono nasceu em Malta, formado em psicologia e medicina, professor na universidade de Oxford e Cambridge, autor de inúmeros livros sobre criatividade e da famosa expressão “Lateral Thinking”. A sua fundação encontrava-se num edifício antigo amplo de cores alaranjadas, que caraterizam o sereno ambiente cromático mediterrânico, junto ao mar e com uma vista maravilhosa para o casario de La Valletta.

A verdade é que quando o curso começou percebi que ia receber os conceitos e as ferramentas de que precisava, mas não a profundidade que esperava, pois verificava que o simpático formador maltês decidia fazer longos almoços cá fora para estimular a troca de experiências entre os participantes, oriundos de diversos países, e terminava o curso às três da tarde para podermos conhecer os locais e os recantos das ilhas de Malta e Gozo.



Confesso que no início isso irritou-me, pois, o meu foco era a aprendizagem e não o turismo, e sentia aquela opção como uma certa “preguiça” e facilitismo que inibia a minha possibilidade de poder aprender mais. Tornei-me um formando mais cético e até crítico, até que um dia fomos a uma praia e quando dei por mim senti uma felicidade profunda enquanto me banhava com os meus colegas nas águas quentes do mediterrâneo, numa baía que parecia ter o poder de parar o tempo. Naquele momento, uma colega da Letónia, olha para mim e diz: “Finalmente relaxaste!”

Fiquei a pensar naquilo e, agora passados catorze anos, apesar de gostar muito e continuar a aplicar as técnicas do Edward de Bono regularmente no meu trabalho, lembro com mais prazer e gratidão esses momentos de descoberta e ócio depois do curso, do que do curso propriamente dito. Fui lá para desenvolver a minha criatividade e descobri que, afinal, o formador tinha razão, a criatividade desenvolve-se com trabalho, mas também com ócio.


É preciso saber parar para deixar o cérebro incubar e fazer novas associações. No entanto, saber parar é das coisas mais difíceis!

Tornei esta questão alvo da minha reflexão no primeiro capítulo do meu livro sobre criatividade “De Clone a Clown”. Partilho convosco algumas dessas reflexões neste artigo.

Estar num estado de constante ansiedade para a execução diminui a possibilidade de fazer as coisas de forma diferente. A tendência é para ‘despachar o assunto’ e reagir à pressão com as ideias que achamos que já resultaram, para nós ou para alguém, no passado. Entramos numa espécie de ‘piloto automático’, cego às diferentes possibilidades que a realidade atual nos oferece. Por essa razão, é importante colocar em prática novos hábitos diários que permitam encontrar um espaço de tranquilidade e relaxamento propício à produção de ideias originais.

Quando estamos acordados, ativos e concentrados, a atividade elétrica do cérebro produz padrões de ondas cerebrais conhecidos como Beta. Quando começamos a relaxar e a sentir um bem-estar calmo e tranquilo estamos na área conhecida como Alfa. Quando estamos a adormecer, naquela fase ‘meio acordados, meio a dormir’ o nosso estado é chamado de Teta e por fim, quando estamos num sono profundo, as ondas emitidas são as Delta.

O estado Beta de forma continuada pode ser resultado de estados emocionais como a tensão, a ansiedade e o stresse, o que inviabiliza uma concentração focada, dando antes origem a uma concentração difusa, pouco criativa. Por outro lado, observa-se que a melhor criatividade se encontra no nível Alfa, um estado de relaxamento concentrado, fundamental para um bom equilíbrio físico e psicológico, propício à imaginação.

Conta-se que Thomas Edison, talvez o maior inventor de sempre, costumava sentar-se em frente à sua lareira segurando uma grande bola de metal. O fogo e o conforto da cadeira ajudavam-no a relaxar, mas se relaxasse demasiado, deixaria cair a bola e acordava. Dessa forma ensinou o cérebro a ficar nesse estado ‘Alfa Teta’ durante um determinado período no qual dizia ter as ideias mais criativas. Consta que o mesmo Edison, inventor de um tipo de cana de pesca e um ávido 











o que a meditação tem de especial é: tornamo-nos cada vez mais nós.


David Lynch


pescador, quando se con­frontava com um problema difícil e queria ter sossego para pensar, pegava na cana, em linha e num anzol e ia pescar. Normalmente voltava sem nada. Mais tarde revelou: «Como era o meu tempo de pesca, a minha equipa não me incomodava, e como não usava isco, os peixes também não!».

Às vezes, pergunto à minha audiência quando e onde é que têm as melhores ideias. Raramente a resposta é “no meu trabalho” ou no “escritório”. Invariavelmente as respostas são: “a ca­minhar”; “quando estou a fazer a barba”; “no banho”; “a brincar com os meus filhos”; “no comboio”. Recordo-me de um administrador que disse ter decidido viver a uma hora de distância da empresa, pois assim garante que tem o tempo da viagem diária para criar e organizar as ideias. Porque será? Porque estes são habitualmente momentos Alfa. Não é por acaso que Arquimedes grita o famoso “Eureka!” enquanto está na banheira. Lamentavelmente, no local de trabalho, onde deveríamos ser mais criativos, a maior parte do tempo só temos momentos Beta. «As únicas grandes ideias que tive ocorreram-me nos momentos de devaneio, mas parece que a vida moderna tenta impedir os homens de devanear», diz Nolan Bushnell, fundador da companhia de vídeo jogos Atari.

Pequenas mudanças poderão ajudá-lo a ter mais momentos Alfa no seu dia. O ritmo da música que ouvimos, por exemplo, tem o poder de induzir diferentes batimentos cardí­acos e logo diferentes padrões de ondas cerebrais. Em Beta os batimentos da música e do coração são de oitenta ou mais por minuto, enquanto em Alfa se observam batimentos entre os sessenta e oitenta por minuto. 

Curiosamente é este o ritmo médio das ondas do oceano, por isso é que algumas pessoas acham o mar tão relaxante.

Outro hábito tão simples como parar e estar durante alguns minutos apenas concentrado na sua respiração, pode ter o efeito de lhe criar um bem-estar emocional propício à criatividade, pois descentra-o dos pensamentos que lhe podem estar a provocar as tensões. A respiração influencia e é influenciada pelo estado emocional em que nos encontramos. 

Podemos modificar conscientemente o nosso estado físico e mental pela maneira como respiramos.

A minha viagem diária para os estados Alfa e Teta consiste em fazer meditação. Desde que descobri esta técnica pratico-a duas vezes por dia, de manhã e ao fim da tarde, em períodos de vinte minutos, com excelentes resultados para o meu bem-estar diário. A Meditação não é uma religião, nem uma filosofia ou um modo de vida, consiste antes numa técnica natural para reduzir o stresse e expandir a perceção consciente. O realizador David Lynch, que além de praticante é um entusiasta da técnica, diz que «o que a meditação tem de especial é: tornamo-nos cada vez mais nós». Caso não possa ou não queira fazer um curso presencial, recomendo, para começar, que experimente os programas gratuitos da aplicação Headspace.

Seja através da música, do desporto, de caminhadas, do contacto com a natureza, da respiração, da meditação ou de qualquer outra forma, o importante é que introduza novos hábitos na sua vida que lhe permitam parar e ter mais momentos Alfa, para que possa estar mais em contacto consigo mesmo e ter ideias mais criativas, fundamentais para os tempos que correm.


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