11 de Abril de 2021




À conversa com Patrícia Queirós




Patrícia Queirós, de 37 anos, natural de Lousada é atriz há 17 anos, com formação em Interpretação /Teatro pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto. Sempre sentiu uma grande necessidade de expressão verbal e corporal. 

 



E

por isso, quando aos 17 anos entrou para um grupo de teatro amador percebeu que a pro­fissão de atriz poderia ser o caminho para a realização do que sente ser a sua missão – comunicar, expressar, aproximar, relacionar, inquietar, criar…

Start & Go – Como tem sido ser atriz neste momento complexo para o setor da cultura no nosso país?

Patrícia Queirós - Tem sido um verdadeiro desafio, entre a dificuldade em ter trabalho e a adaptação de trabalho às contingências necessárias - desde uma produção, que foi adiada aquando do primeiro confinamento, e que aconteceu na reabertura dos teatros, e que nos levou a manter as distâncias de segu­rança durante ensaios e na própria encenação, como foi o caso da peça “O Burguês Fidalgo”, pelo Teatro da Palmilha Dentada em coprodução com o Teatro Nacional de S. João, em Maio de 2020; até à solução de fazer espetáculo, pela internet, como é o caso do “Bazuca News”, pela mesma companhia de teatro.

Apesar de tudo tive a sorte de ser convidada para vários projetos no Verão passado como foi o caso do espetáculo “Terra Queimada”, pela Astro Fingido, numa ação de prevenção aos incêndios; da atividade como locutora na Rádio Estação, a rádio oficial da Feira do Livro do Porto; e de uma outra peça da Palmilha Dentada, “Tio Goggle”, que aconteceu na Casa das Artes já no início do Outono, quando começou a haver recolher obrigatório, que nos fez alterar a hora dos espectáculos.

Além de que a personagem que desempenhava semanalmente no progra­ma da RTP1 “Praça da Alegria”, foi suspensa em Março de 2020, “tempo­rariamente”, e até agora não recebi nenhum contacto a falar do regresso.


... é fundamental dar acesso à arte para capacitar as pessoas de competências comuni­cacionais, criativas e relacionais de maneira a potenciar os resultados pre­tendidos


Patricia Queirós - Atriz   


“O Burguês Fidalgo”, pelo Teatro da Palmilha Dentada em coprodução com o Teatro Nacional de S. João




“Bazuca News”, fazer espetáculo, pela internet


“Terra Queimada”, pela Astro Fingido



Start&Go - Para muitos profis­sionais, do setor da cultura e não só, o confinamento foi uma época de reflexão e de inovação. Novos projetos surgiram?

Patrícia Queirós - Reflexão antes demais sobre os princípios que orientam as acções de quem é responsável por organismos públicos. Das pequenas estruturas artísticas tive sempre a maior atenção e respeito, e até um sentido de união comovente porque afinal de contas o “barco começou a afundar” e tivemos que nos ajudar uns aos outros. Da parte de organismos altamente financiados por dinheiro público só senti des­con­si­de­ração e desprezo. Ora isso dá origem a muita reflexão. Quanto à inovação, que por definição significa algo novo que gera mudança, claro que surgiu a mesma que noutros sectores - a alternativa do teletrabalho. Reuniões, formações, algu­mas representações transitaram para a dimensão digital, o que veio dar-nos uma nova visão sobre a relatividade do Espaço e do Tempo. O espaço digital também é espaço, mas o Teatro, em si mesmo, vive do encontro presencial, por isso a presença física é fundamental para preservarmos a maior forma de encontro e confronto com a nossa mais absoluta essência. De maneira que, a alternativa do teatro pela internet funciona, de certa forma, assim como o teatro radiofónico por exemplo, mas claro que não é o mesmo que ir ao Teatro. Ainda assim possibilita satisfazer uma das maiores necessidades do Ser Humano, que é a de conexão.

Start&Go - Na tua opinião estes novos formatos de fazer cultura vieram para ficar? Será uma oportunidade de levar os espetá­culos a um maior número de pessoas?

­Patrícia Queirós - A disponi­bili­za­ção de espetáculos, palestras, forma­ções através da internet vieram apro­ximar as pessoas de muitas atividades desenvol­vidas em zonas geográficas distantes,                      


naturalmente.

Eu, por exemplo, tive acesso pela internet a palestras, espetáculos, entre muitas outras emissões de todo o mundo e estou até a tirar um curso, com sessões semanais, com os formadores em Lisboa, que presencialmente não me seria possível tirar. Por isso, como em tudo na vida, o que é bom e benéfico deve manter-se para o bem de todos.

Eu própria já fiz espetáculos online com pessoas a assistir em Londres, Alemanha, etc, que naturalmente não teriam acesso de outra forma; assim como leituras dramatizadas de peças de teatro para mais de 600 alunos de todo o país numa só sessão.

Aliás, um aspeto muito importante, por exemplo, para o combate ao isolamento e à estagnação mental, foi a criação de um Clube de Leitura em Voz Alta, que criei no Cais Cultural de Caíde de Rei, freguesia onde resido, que acolhe um grupo de pessoas absolutamente heterogéneo (até pessoas do Brasil, por exemplo) e que nos permite partilhar                      

leituras breves mas muito diversificadas, aumentando não só a nossa cultura literária, como capacitando-nos da mais valia do storytelling, uma vez que nos permite “viajar” ao som de palavras, histórias e poemas.

Acredito, por isso que estas alternativas venham para ficar sim, da mesma forma que o email veio para ficar e as redes sociais vieram para ficar. O que não impede que se continuem a enviar cartas e a marcar encontros com amigos num café ou restaurante. Claro que, enquanto existir a pandemia, essas rotinas continuarão mais limitadas e a solução digital será a possível, mas devo dizer que também acredito que viveremos anos “loucos” quando tudo isto se dissipar. Anos de muito convívio, de muito consumo cultural presencial, enfim, o desafogar da angústia do isolamento. O melhor exemplo disso foram os meses de Verão de 2020 em que as esplanadas encheram e até os teatros tiveram constantemente lotação esgo­tada, ainda que limitada a 50%.


RTP1 “Praça da Alegria” 

Start&Go – A arte é em si mesmo um exercício de inovação, é possível levar a arte para o mundo empresarial? De que forma?

Patrícia Queirós - Não só é possível, como é fundamental. A arte per­for­mativa, audiovisual e não só são instrumentos poderosíssimos para o desenvolvimento humano. E se as empresas são constituídas por pessoas… pessoas que precisam gerar ideias, produzir bens e serviços, resolver pro­blemas, atingir objetivos, é fundamental dar acesso à arte para capacitar as pessoas de competências comuni­cacionais, criativas e relacionais de maneira a potenciar os resultados pre­tendidos. 

 Aliás, bom exemplo da forma como isso pode ser feito, é a ação do HighPlay Institute, com quem colaboro como atriz e facilitadora, que muita diferença tem feito nas empresas onde desenvolve as chamadas soft skills, e que se adaptou ao formato digital de imediato de forma a manter o foco da sua missão – desenvolver o potencial hu­mano com recurso ao teatro, ao desporto e à psicologia.

Start&Go – De que forma o teatro poderá ser um meio importante para o desenvol­vi­mento de competências para as crianças ao longo da vida?

Patrícia Queirós - O teatro é a arte mais completa que existe, pois implica, não só, o ser humano na sua plenitude física, mental, intelectual, cognitiva, relacional, emocional e criativa como também alberga na sua linguagem e forma de expressão muitas outras formas de arte, como sendo a música, a dança, a pintura, a literatura, etc. Por isso, a questão é: Que competências é que o teatro não desenvolve?

Start&Go – Que projetos podemos esperar para o futuro?

Patrícia Queirós - Dependerá da aprovação do Ministério da Cultura e da conjuntura pandémica. Mas o que eu espero sinceramente para o futuro é que o público se junte à luta dos profissionais das artes pelo investimento do Estado na cultura, porque é um Direito Constitu­cional que tem sido gerido de forma pouco honesta por parte das entidades responsáveis, que apresentam apoios e subsídios que na verdade não corres­pondem à informação veiculada na comunicação social e que consequen­temente asfixia muitas estruturas profis­sionais, que têm lutado muito pela sua sobrevivência e dos seus projectos. E isto devia dizer respeito a toda a população contribuinte. 


Esta semana por exemplo, o apoio universal “que não deixaria ninguém para trás”, não só exclui à partida muitos profissionais (eu inclusivé) como já informou centenas com a resposta de “Negado”, o que significa que de universal não tem nada. 

Na mesma semana em que, aos mais de 400 milhões para o Novo Banco, sabemos que este pede mais quase 200 milhões para fazer face aos prejuízos contínuos. E para quem pensa que os artistas e demais profissionais da cultura exigem apoio para serem artistas, não! 

Exigimos investimento na Cultura de todo um país, que é este nosso, do qual somos agentes de serviço público. Um médico não recebe do Estado para ser médico, mas sim para cuidar da saúde das pessoas. Assim devia acontecer com os artistas e técnicos. 

Não conheço outra profissão, como a do sector das artes, onde tanto se trabalhe de graça, sem férias, nem qualidade de vida, pelo pleno sentido de missão, por isso é mais que justo e imperativo que se reconheça a impor­tância da acção dos agentes culturais com o devido investimento na sua actividade. 

Só com um real investimento na Cultura, na Educação e na Ciência se poupará na Saúde, na Segurança e na Justiça, não concordam?



“Tio Goggle”, na Casa das Artes



“Vidago Palace”, serie da RTP1



RTP1 “Praça da Alegria” 


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