12 de Abril de 2021











RUI GUEDES

Diretor de Vendas das Páginas Amarelas


Ornatos


Se de forma simplificada olharmos para a cultura como um conjunto de costumes, de tradições, de crenças, de padrões morais e de manifestações artísticas que caraterizam um povo ou determinado grupo, podemos porventura dizer que o conceito diz respeito a tudo o que esse povo ou grupo, sente, pensa e faz.



Com esta definição de partida, rapidamente se chega a outro con­ceito, já que é mui­to comum a asso­cia­ção da cultura à arte e aí, podemos fa­lar de es­cul­tura, pin­tura, li­te­­ra­­­­tura, dança, cinema, teatro, foto­grafia e música entre outras. A arte pode­ria ser então uma forma de repre­sentar e mate­rializar a cultura e talvez seja lícito concluir que tudo o que é arte é cultura, mas nem tudo o que é cultura é arte.

Aqui chegados, seguimos para uma noção de cultura organizacional vista como um conjunto de costumes, valores, crenças e ações que caraterizam a forma como uma organização se comporta e traça um rumo para os seus negócios. 

Apesar de nem sempre ser fácil uma materialização daquilo que referimos, é certo que este pulsar interno vivido em cada empresa fornece alguma pre­visibilidade, na medida em que as pes­soas sentem se são ou não ouvidas, se o trabalho de grupo é valorizado, se os meios importam para se chegar aos obje­tivos, qual é a importância do Cliente em todas as ações desenvolvidas e todos estes “detalhes” acabam por ser deter­minantes na criação de um saudável sen­ti­mento de pertença. 

Tendo passado por várias empresas com histórias de dezenas de anos construídas em cima de percursos muito vincados e diferenciados entre si, posso afirmar que esta cons­ciência coletiva não colide, de todo, com uma desejável diversidade, com o res­peito pela individualidade de cada um e pelo espaço








que cada pessoa deve ter para poder crescer e se afirmar.

A tentação de olhar para estes temas e discorrer sobre aquilo que é ou não arte, é evidente, mas para o que interessa relativamente às vendas, retenhamos que se deve continuar a exigir uma boa nota artística a qualquer Vendedor digno desse nome. Claro que esta componente menos pragmática usada num processo de venda, não deve levar o profissional a desarvorar por um caminho sem regresso no qual foi colocando mais ou menos ornatos para embelezar um diálogo vazio de conteúdo. Até à data, quem cor­po­rizou uma conjugação de ciência e arte num único ser com resultados que tran­scendem a nossa compreensão imediata foi Leonardo da Vinci e portanto é bom que nós, simples humanos, desçamos à terra e nos foquemos “apenas” no Cliente, recordando conceitos como a ex­periência, a satisfação e a centralidade.

De qualquer modo, como de cultura se fala, como a arte lhe está in­trinsecamente ligada e como a música tem aqui um papel de evidente relevo, peguemos então numa simples canção de uma banda de culto portuense que conseguiu com apenas 2 álbuns deixar uma obra marcante e criar uma legião de fiéis seguidores. A escolha mais óbvia dos Ornatos Violeta seria o “Ouvi Dizer” mas a opção pelo “Capitão Romance” pre­tende desde logo relevar um ponto que considero fundamental. O gosto não se discute e como adicionalmente nenhum dos leitores deste texto terá já idade para esconder os seus “guilty pleasures” musicais, podemos encarar de frente aquilo que nos toca verdadeiramente, ____________________

        sem risco de deixar escapar algum sentido de pertença, pois o contrário desta opção, poderia sim, levar a uma perda de afirmação da individualidade.

        Neste caso concreto, como se trata de uma banda que passou a ser respeitada até pelos mais circunspectos críticos, nem se corre o risco de uma escolha socialmente questionável, contudo o que me traz a este romance, além do gosto pessoal, é o ambiente sonoro, os arran­jos, a interpretação, a escolha dos instru­mentos e uma mensagem que, como é normal nas mais variadas formas de arte, interpretei de um determinado modo, assumindo sem qualquer receio, que poderá ser muito diferente da que estava na intenção inicial do autor. Esta subje­tividade é também uma das atra­ções que a arte exerce em cada um de nós.

        Vejo nas frases iniciais e depois praticamente ao longo de toda a letra, uma contradição constante entre a desistência eminente (“pelo tamanho das ondas conto não voltar”, “esperam-me homens que desistem”,…) e a coragem de seguir em frente contra todas as adversidades (“o que eu quero é na­ve­gar”, “parto rumo à Primavera”, “esperam-me ondas que persistem”, “parto rumo à maravilha, rumo à dor que houver pra vir” …). Vejo também um lamento de quem olha para trás e reconhece que as muitas coisas que lhe tocaram foram passando sem que lhes tivesse sido dada a importância que merecia (“e ao fim não toquei em nada, do que em mim tocou”). Esta contraposição que desagua num lamento, tem o seu momento maior numa frase que faz a síntese de tudo e é                     

        “repetida ao expoente da loucura” como os próprios Ornatos referem numa outra oportuna ocasião: - “Eu vi mas não agarrei!

        Ora num momento como aquele que atravessamos, em que não podemos estar próximos fisicamente, não podemos dar um simples cumprimento, não podemos abraçar muitas pessoas de quem gostamos, não podemos estar sentados à volta de uma mesa simplesmente a conversar, esta frase explode numa imagem na qual vejo alguém sentado numa sala de cinema vazia, a ver o filme da sua vida a passar. Este é precisamente o filme no qual não nos podemos deixar envolver, até porque o conforto da poltrona, o ambiente climatizado, a baixa luminosidade da sala e toda a atmosfera criada, são ingredientes que facilmente nos anestesiam e nos levam ordeiramente para um sono ilusoriamente reparador.

        Levantemo-nos! Como dizia sabiamente Vieira, “Nós somos o que fazemos” e portanto “Nos dias em que não fazemos, apenas duramos".

        Estar separado fisicamente não é estar solitário e dentro de cada empresa todos têm a responsabilidade de reforçar laços e de ser criativos na forma de comunicar. __

        Obviamente que os líderes poderão ter uma obrigação acrescida neste domínio e isto terá uma maior expressão se existir a consciência  de que a própria cultura organizacional pode ser uma vantagem competitiva. É importante contudo salientar que a Visão, a Missão e os Valores, sendo pedras basilares, não são castradoras da iniciativa individual mas, pelo contrário, são o terreno fértil no qual se pode empreender com toda a determinação, tendo presente que também isto, pode ser potenciador de um ambicionado sentimento de pertença. Cada um de nós influencia as pessoas com quem interage e é, por sua vez, influenciado por estas, até porque qualquer um se pode assumir como líder pela credibilidade que vai construindo e pela forma como é ouvido pelos outros, independentemente de qualquer hierar­quia mais ou menos rígida.

        O que mais me fascina no nevoeiro que hoje nos envolve é a certeza do Sol que a espaços desvenda a beleza imaculada do mar”. Esta iluminada reflexão do poeta Ricardo Guimarães, que de simples tem apenas a aparência, é certeira, direta, eficaz sem deixar de ser poética e abre um caminho de esperança.

        Acabemos com o conforto enganador de uma poltrona bafienta que nos imerge

        num nevoeiro cada vez mais denso.

         É hora de nos agitarmos, de nos inquietarmos e de rasgarmos esse nevoeiro, para voltarmos a ver coisas triviais que sempre ali estiveram, mas às quais talvez não tenhamos dado o valor que agora vemos como óbvio.

        Valorizemos o que temos sem perder a ambição, demos prioridade às pessoas mantendo as empresas em jogo, percebamos que nada do que até hoje se conquistou é eterno e exige por isso atenção redobrada em tempos de atribulação. Com respeito pela diferença, temos a enorme responsabilidade de ir muito para além do Ver. Posso sempre dizer que vi a realidade e no limite até posso dizer que a percebi, contudo, tudo isto é muito pouco quando há tanto para construir. Virá brevemente um tempo em que muitos novamente se abraçarão, mas até lá não podemos adiar e temos por isso que agarrar oportunidades, agarrar nos meios que aí estão, agarrar na muita energia que temos, agarrar na nossa melhor versão para podemos dizer… Eu vi… e agarrei!





        Fotografia:LuisSousa|MusicaEMDX


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