11 de Abril de 2021




Frédéric Pires, diretor do Leirena Teatro assegura: 

Teatro tem que se reinventar para poder continuar a existir



Fundado em 2011, o Leirena Teatro é uma estrutura artística cujo foco está na ideia de um “Teatro para Todos”. Nesse sentido, a companhia criada por Frédéric Pires, filho de emigrantes em França, que aos sete anos regressou ao país de origem, aposta no desenvolvimento de projetos de teatro comunitário e educativo que procuram dar resposta às necessidades da região.

 

Por Fernanda Silva Teixeira


A

gora, em tempo de pandemia, o Leirena Teatro reinventou-se. Uma grande bolha de plástico dentro da qual atores representam foi a solução encontrada para manter a ativi­dade e reduzir o perigo de contágio com Covid-19 de público e elenco. “Não queremos que quem assiste ao espetáculo veja no globo somente uma estratégia de segurança devido ao Covid-19”. Por isso, explica Frédéric Pires, “o globo é um elemento cénico que pertence ao espetáculo e faz parte da ação”.

Start & Go – Antes de mais, o que é e como surgiu o Leirena Teatro?

Frédéric Pires - Foi em 2010 que comecei a escrever um projeto com o nome Leirena Teatro. Feito o projeto, entro em contato com o município de Leiria com o propósito de dirigir um curso de verão para crianças e jovens no Castelo (com o objetivo de analisar a procura). As inscrições estavam abertas só para 30 alunos. As vagas foram todas preenchidas e no espetáculo final a casa estava cheia. Isso mostrou que havia crianças e jovens interessados em fazer teatro. Em 2011 convidei três colegas do curso de Coimbra a entrarem no projeto e a 13 de junho nasce o Leirena Teatro – Companhia de Teatro de Leiria. Uma estrutura artística onde o foco está na ideia de um “Teatro para Todos”, desenvolvendo projetos de teatro comunitário e criações artísticas.

O projeto apresentou-se à comuni­dade leiriense com a abertura da sua escola para crianças e jovens e a estreia do espetáculo “Tudo Baila em Seu Redor”, uma produção original que

nasceu de uma pesquisa junto da comunidade rural e do cancioneiro “Entre o mar e a serra”. A partir daí, até os tempos de hoje, foi de muita luta, resiliência e resistência.

Atualmente a companhia conta, a tempo inteiro, com quatro atores, uma produtora e uma assistente de produção, e prevemos a integração de mais um profissional da área da interpretação. Também fazem parte outros profissionais na área da direção musical, imagem, fotografia, cenografia e figurinos. E pontualmente contratamos mais atores quando as produções assim o necessitam. A companhia, ao longo destes quase 10 anos, também realizou um forte investimento em material técnico, fundamental para que as suas digressões e os dois festivais que organiza anualmente, nos Municípios de Leiria e de Porto de Mós, possam ter todas as con­dições no acolhimento das

estruturas con­vidadas como oferecer à comunidade que assistetoda a qualidade que merecem.

Start&Go - A cultura sempre viveu no limite e vista muitas vezes como um custo. Qual a relevância do setor para a economia local e nacional?

Frédéric Pires - Sobre economia, há muito que falar. Mas deixarei aqui só alguns pontos que penso serem, de momento, os mais pertinentes, tendo em conta a conjuntura atual devido à pan­demia. Nesse sentido, é importante mencionar que qualquer companhia liga­da às artes tem como objetivo principal a criação artística. No entanto, as opções artísticas têm consequências financeiras, assim como as possibilidades financeiras condicionam a criação, sem nunca colocar em causa a qualidade e o profissionalismo do produto artístico. E se o investimento na cultura não for 


Foto da autoria de Carlos Gomes

igualitário em termos territoriais, verificaremos cada vez mais divergências a nível nacional. Um espetáculo gera recei­ta, paga ordenados, paga serviços pres­tados durante a sua conceção, atrai público de perto ou de longe que antes de assistir vai jantar ao restaurante e no final da apresentação vai a um bar. A criação de um produto e a sua apre­sentação criam movimentação econó­mica, atrai público e dá valor à região e isso é extremamente importante para a economia local e nacional. Para além disso, uma estrutura artística procura dar a todos o acesso às artes e dotar o público de ferramentas que o torne um cidadão cada vez mais ativo e crítico. Para além disso, o desenvolvimento de projetos comunitários onde a arte está mais inclu­siva integra as pessoas e causa bem-estar social. Se um projeto de intervenção comunitário for desenvolvido numa loca­li­dade onde a maior parte dos habitantes trabalha numa grande indústria local, o bem-estar social promoverá sem dúvida mais ânimo, espírito de equipa, empenho e dedicação.

Start&Go – Nesse sentido, qual a importância da profis­sio­nali­za­ção das estruturas artísticas?

Frédéric Pires – Uma estrutura artística profissional não pode descartar e colocar em segundo plano a sua gestão. A profissionalização de uma companhia não se deve somente porque tem atores e atrizes profissionais. Nada disso, a

profissionalização de uma instituição resulta de ela ser constituída por pro­fissionais de múltiplas áreas. O que faria um ence­nador ou ator sem gestor ou produtor? Se queremos criar e estar em cena temos que procurar os meios financeiros e investir para termos quem possa fazer contactos, vender, gerir a agenda, organizar as digressões e as ne­ces­si­dades, ver concursos e candi­daturas. É uma questão de tempo, a equipa artística tem que conceber a criação, a equipa de produção tem que colocar o produto artístico a render para a sobre­vivência da companhia. Agora, nem to­dos têm a pos­sibilidade de ter um/a produtor/a. Nesse caso, a equipa terá que gerir o tempo e isso terá con­sequências na conceção do espe­táculo. O trabalho artístico não está somente na criação, mas também no desen­volvimento de uma programação, seja para uma sala de espetáculos ou para um festival. E para atrairmos mais público, temos que ter uma programação diver­sificada, mas coerente com os objetivos e com o pensamento de quem faz a direção artística da sala de espetáculos ou do festival. As nossas opções artísticas têm con­sequências financeiras assim como, as nossas pos­sibilidades financeiras con­di­cionam, nes­te caso, a aquisição de es­pe­­táculos a aco­lher. Sabemos que uma boa pro­gramação atrai público, valoriza a região e traz economia. Mas, há muito tra­­balho a fazer para que a valorização 

das artes seja uma realidade cada vez mais próxima.

Start&Go – Não obstante, a arte tem é também um investimento na educação dos mais jovens… 

Frédéric Pires - Se uma criança com aulas de dança explora o seu corpo, adquirindo maior consciência física e dialogando com a música e com o outro, ganha também uma série de compe­tências que serão uma mais-valia para as outras disciplinas, para o seu dia-a-dia e, sobretudo, para o seu futuro. Por isso, as artes têm que fazer parte do programa curricular das nossas escolas. As artes não podem ser um luxo para alguns. É uma necessidade de todos numa socie­dade que tem que ser cada vez mais igua­litária e inclusiva. E a economia está neste tema da educação porque a escola empregará profissionais das artes, leva os alunos a assistir a exposições, à compra de espetáculos, adquire materiais neces­sários para a lecionação dos conteúdos artísticos e, a longo prazo, tem efeitos notórios no comportamento de uma sociedade mais humana, ativa e crítica.

Start&Go – Perante tudo isto, em que medida a Leirena Teatro se diferencia das demais companhias?

Frédéric Pires - A diferenciação está nos projetos que desenvolve tendo em conta as suas necessidades e as neces­sidades da região onde está sediada. Se estivéssemos no Porto ou em Fafe os projetos seriam certamente

diferentes. Por isso, a oferta cultural que uma estru­tura promove tem muito a ver com a sua localização e área de ação. Todas as companhias têm projetos singulares que se diferenciam das demais, mas com objetivos semelhantes. Neste caso, para além da criação de espetáculos e da sua digressão regional e nacional, a Leirena desenvolveu uma série de projetos de teatro comunitário com o objetivo de desenvolver novos públicos e dotar quem assiste com um outro olhar e afinidade em relação à arte. O “Novos Ventos – Festival de Teatro Comunitário” é um festival que decorre durante cinco semanas em cinco freguesias do concelho de Leiria. Uma freguesia por semana. E nessa semana os profissionais do Leirena desenvolvem cinco residências artísticas comunitárias com os coletivos culturais e instituições locais, criando assim cinco espetáculos comunitários originais que serão apresentados no domingo por uma companhia profissional. Ou seja, durante cinco semanas, estamos em cinco freguesias, desenvolvemos 25 espe­tá­culos comunitários onde participam no total 250 pessoas do associativismo local e com a apresentações de cinco a sete espetáculos profissionais.

Para além disso temos também o Festival de Teatro de Rua de Porto de Mós, onde os profissionais do Leirena constroem ao longo de cinco a seis meses, oito espetáculos com os grupos amadores do 

concelho de Porto de Mós. Ou seja, cada profissional dirige um grupo amador criando uma dramaturgia original e encena o espetáculo para ser apresentado na praça principal do município. No final, todas as noites, 300 a 400 pessoas assistem ao certame. Este festival começou com quatro grupos ama­dores, e devido à sua existência hoje já temos oito grupos. Ambas as ini­ciativas vão na sua 6ª edição e as pessoas têm já os projetos como seus, fazendo parte da sua vida, e isso deixa-nos extre­mamente felizes. É claro que este tipo de projeto dificilmente existiria se não tivés­semos apoio dos municípios e das juntas de freguesia.


Leirena Teatro lança ‘Teatro no Globo’ como resposta à pandemia


Start&Go – Uma grande bolha de plástico dentro da qual atores representam foi a solução encon­trada pelo Leirena Teatro, para manter a atividade e reduzir o perigo de contágio com Covid-19 de público e elenco. Como surgiu esta ideia? E qual foi a recetividade do público?

Frédéric Pires – Todos os anos o Leirena recebe nos meses de novembro e dezembro estagiários de escolas profissionais de teatro que, num espaço de um mês, desenvolvem uma nova

dramaturgia, com temática natalícia, e encenam o espetáculo que depois é apresentado em temporada nos jardins e nas escolas do 1º ciclo de dezembro até ao Dia de Reis. Em setembro a equipa reuniu-se para desenvolver a sinopse para apresentar às escolas a oferta que teríamos em dezembro.

Porém, devido a pandemia, era impossível entrarmos dentro do recinto escolar e apresentar o espetáculo. Ou seja, ou faríamos online ou não faríamos nada. Online, já havia muita oferta. Mas, não fazer nada não está na génese do Leirena. Por isso, era urgente encontrar uma solução que permitisse entrar nas escolas e apresentar os nossos espe­táculos em segurança, tanto para as crianças, como para o elenco. E uma vez que o Leirena Teatro depende da receita de todos os projetos que realiza, devido à pandemia, era urgente encontrar uma solução. Assim nasceu a ideia do Globo. Primeiramente como conceção de um espetáculo natalício, onde toda a ação decorre dentro de um globo de neve, e depois como um projeto propriamente dito que nos permite levar diferentes espetáculos para as escolas e teatros.

O ‘Teatro no Globo’ é assim uma nova proposta artística que o Leirena Teatro lança como resposta à pandemia. Estamos a viver um período em que ouvimos dentro e fora das nossas casas as palavras confinamento, quarentena e máscaras, mas, não poderemos deixar de 

ouvir, ver e sentir a arte e a cultura. A singularidade deste novo projeto está na realização de espetáculos onde a ação decorre dentro de um globo transparente. No entanto, não queremos que quem assiste ao espetáculo veja no globo somente uma estratégia de segurança devido ao Covid-19. Não. O globo é um elemento cénico que pertence ao espetáculo e faz parte da ação.

A receção das escolas foi espetacular. As professoras mostraram logo no início interesse devido ao efeito do primeiro confinamento nas crianças, estas precisavam de ver um espetáculo, de poder sorrir, imaginar e viajar. A primeira produção ‘O Globo de Sophia’, a partir do conto ‘Noite de Natal’ de Sophia de Mello Breyner Andresen, continua em cena. E estamos a criar ‘O Globo de Saramago/ 1993’, a partir da obra poética ‘O Ano de 1993’, de José Saramago, e a preparar uma nova dramaturgia para pais e filhos, também inserido neste projeto.

Start&Go - Na sua opinião este tipo de iniciativas é para continuar quando a “normalidade” re­gres­sar? Se sim, porquê?

Frédéric Pires - Qualquer espe­táculo que a companhia realiza fica em cena até que não haja mais procura ou interessados, apesar de todos os anos estrearmos duas criações novas. No que cabe aos projetos que este ano foram concebidos em resposta a atual pandemia, vão continuar com a máxima força. A oferta que temos em carteira, especialmente as criações artísticas que foram produzidas em 2020 e 2021 durante a pandemia, são espetáculos que a companhia investiu muito tempo e dinheiro. São coproduções e parcerias importantíssimas para o território. Por isso, vamos apostar neles. A respeito da “normalidade” ela vai levar muito tempo a regressar e as coisas não serão como dantes.


Teatro tem que se reinventar sempre para poder continuar a existir


Start&Go - Representar dentro de uma bolha de plástico foi uma alternativa à realidade que conhe­cíamos. Até que ponto, o teatro no geral teve e tem que se reinventar?

Frédéric Pires - O teatro teve que se reinventar sempre para poder continuar a existir. Agora, mais que nunca. Mais, todo o artista tem que se reinventar sempre a toda a hora. Tanto nos processos de criação, como em 





2010



30 alunos


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2011


13 de junho 



nasce o 



Leirena Teatro

Companhia de Teatro de Leiria


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(10 anos)


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2021





temáticas que pretende discutir, na linguagem estética que quer explorar, entre outros. Há sempre novas pro­blemáticas que obrigam o criativo uma constante atualização.

A bolha foi uma resposta criativa a uma necessidade, assim como tantas outras produções. O nosso ‘Sob a Terra’ que é um espetáculo ao ar livre, conta com uma máquina cénica vertical de 6 metros de largura por 4,5 de altura, onde é proje­tado através de um videoprojector o desenho digital em tempo real feito pelo artista plástico Nuno Viegas. A máquina cénica tem janelas e portas que se abrem e onde os atores fazem a sua perfor­mance. E todo o elenco está com microfones de modo a amplificar as suas vozes. Ou seja, este espetáculo permite que haja um bom número de público a assistir e devidamente distanciado sem perder a performance.

Start&Go – A Leirena vai atribuir uma bolsa de criação artística no valor de mil euros, para “dar o exemplo” de como é possível apoiar o setor cultural em tempo de pandemia, incentivando a pro­dução. Acredita ser possível alar­gar este tipo de iniciativas a outras companhias e regiões do país? De que forma?

Frédéric Pires - O dar o exemplo não é unicamente às estruturas artísticas que têm a possibilidade. É também às grandes empresas públicas e privadas, à administração central e local, a todos aqueles que poderiam promover o investimento cultural de forma regular e dar a volta à situação. Esta bolsa foi lançada para apoiar artistas freelancer e estruturas emer­gentes. É urgente que a atividade artística retome a velocidade que perdeu. É necessário repensar a forma de programar as salas e os espaços culturais. Sabemos que muitos espetáculos foram cancelados em 2020 e foram reagendados em 2021, antes do 2º confinamento, e que voltaram a ser cancelados e serão novamente reagen­dados. Há salas que não cancelaram a sua programação e apresentaram os espetáculos online porque não poderiam parar. Era uma questão de sobrevivência para os artistas e técnicos. Cada estrutura artística tem as suas problemáticas e dificuldades. Nós temos  as nossas e não são poucas. O problema é que sendo os municípios os principais clientes das companhias, porque a eles pertencem as salas municipais, como é que poderemos integrar uma programação quando há tanto para reagendar? Por isso, penso que nesta primeira fase do regresso à tal “normalidade” deverá repensar-se o conceito de programação e acolhimento. 




“Não queremos que quem assiste ao espetáculo veja no globo somente uma estratégia de segurança devido ao Covid-19”. Por isso, explica Frédéric Pires, “o globo é um elemento cénico que pertence ao espetáculo e faz parte da ação”


Frédéric Pires


Foto da autoria de Carlos Gomes




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