11 de Abril de 2021





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VÍTOR BRIGA

Formador de Criatividade e Comunicação



JAPÃO – OS ATORES DA VIDA



O meu fascínio pela cultura japonesa vem desde a adolescência e é imenso, desde o budismo zen ao cinema de Ozu (e outros) até à elegância estética nas várias dimensões da sua cultura.

Em 2012, fiz a viagem por várias cidades do Japão e pude comprovar ao vivo as razões deste meu fascínio. Hoje quero contar-vos um pequeno acaso que me aconteceu em Quioto.

Era noite e estava a “perder-me” nas fascinantes ruelas desta cidade quando entrei num bar com a minha companheira de viagem. Estavam poucas pessoas, mas sentia-se um ambiente festivo e muito amigável. Ao balcão um grupo de homens muito bem-humorados (como poderá ver na foto que tirei), 

acompanhados pelo estimulante saké, dirigiu-se a nós, os únicos estrangeiros presentes.

Um deles começou a representar pequenas expressões faciais e gestuais, como que querendo comunicar algo através da sua linguagem corporal. Depois da estranheza inicial, apercebi-me que estávamos perante simpáticos atores que nos queriam incluir na sua festa, e que tínhamos entrado, por uma maravilhosa serendipidade, numa “after party” da estreia do seu espetáculo de Rakugo.

Rakugo significa literalmente “palavras caídas”. É um tipo de teatro de humor japonês representado por um ator sozinho em palco, sentado num tatame e apenas com um leque de papel. Este representa diversos personagens, através de monólogos ou diálogos, sendo percetível a diferença apenas pelo tom __


‘Podes ser toda a vida imitação 

tudo estudado em cada gesto exposto papel que representas 

muito exato. 


 Ou podes enfrentar a solidão 

deixar que pouco a pouco um rosto rompa entre fendas 

teu final retrato.’ 


 Bernardo Pinto de Almeida


de voz ou por leves movimentos de cabeça.

O que foi extraordinário é que não trocamos uma única palavra durante toda a noite, pois não falavam inglês, no entanto comunicamos e rimos imenso em conjunto. Saímos dali gratos e plenos e mais uma vez confirmei que o corpo fala alto, muito alto, e com muita verdade.


Uma vez que frequentei diversas formações de ator, é incontornável usar, nos cursos de comunicação que dou, técnicas teatrais, pois creio que temos muito a aprender com o trabalho de ator para o nosso autoconhecimento e para aumentar o impacto da nossa comu­nicação com os outros, percebendo melhor a forma como “representamos” os nossos papeis sociais e profissionais.

O maior equívoco que encontro quando falo da transposição das técnicas de ator para o desenvolvimento de com­petências comunicacionais é o mito de que se vai aprender a colocar máscaras e a fingir comportamentos afastados da essência e da verdade da pessoa. Essa abordagem parece-me um pouco frau­dulenta, com resultados apenas ime­diatos e algo duvidosos.


O importante é aprender a representar novos papéis, ou melhorar papéis já existentes, mas que estejam ligados ao Eu de cada um, que sejam sentidos verdadeiramente, e que criem novas naturezas e possibilidades de ação sustentadas e duradouras.


Isto é, cada um vai encontrar no seu Eu, as crenças, a emoção, a ação e a expressividade própria para adquirir o novo papel comunicacional, através do treino persistente (Role-Playing) dos novos comportamentos e atribuir a esse papel a sua própria unicidade e autenticidade (Role Creating).

Não há dúvida de que, como explica                     


Xavier Guix no livro “Nem Eu Me Explico, Nem Tu Me Entendes”, estamos ligados uns aos outros através de relações de papéis: as obrigações de uns são as expectativas do outro. Ter claro estes conceitos é muito importante quando se acede a qualquer atividade partilhada, sobretudo se as relações são entre desconhecidos: o que se espera exata­mente de mim; o que espero eu exatamente. É fundamental, porém, evitar que neste jogo de papéis se deixe de ser quem é, pois esse efeito de dissociação entre o que se sente e se faz enfraquece e retira impacto ao comu­nicador. “Podemos integrar os papéis na nossa vida de forma natural e dispor das condutas necessárias no momento necessário. Não vestimos o papel, mas somos esse papel.”

É claro que há que considerar os comportamentos menos naturais em nós que, por razões profissionais, temos de ter no ‘palco da vida’, essas situações em que o que sinto é uma coisa e o que estou a fazer é outra: “Na verdade, não me apetecia estar a distribuir sorrisos, mas é o que tenho que fazer. Desempenho um papel!” Não sendo a situação desejável, pois o ideal é que haja um treino para que o papel seja congruente entre o que penso, sinto e faço, este comportamento continua a estar associado à pessoa que o representa. “A minha pergunta é: e esse sorriso era o sorriso de outrem? Ou era aquele seu sorriso que aprendeu a fazer quando dele precisa? Não está a usar uma máscara, mas a utilizar um recurso pessoal, seu, que agora lhe convém. Para quê menosprezar os nossos próprios recursos, como se eles pertencessem a outra pessoa?!”



Caso diferente é o dos camaleões sociais. Pessoas que têm a capacidade de converter-se em personagens de si mesmos e até de transformar-se naquilo que não são, pessoas que preferem, quaisquer que sejam os motivos, afastar-se de si próprios. “Entendo que afastar-se de si mesmo é desligar-se emocio­nalmente, ocultar e até prescindir dos próprios sentimentos. Isto só se pode fazer racionalizando a vida. Por isso, essas pessoas não sofrem de dissonâncias cognitivas, pois costumam ter argu­mentos para tudo. Sabem encontrar e justificar todas as suas ações por muito díspares que elas sejam. Poderia dizer-se que importam pouco os meios desde que se alcancem os objetivos pretendidos.” Acredito que este comportamento pode parecer muito útil às pessoas que o usam, não me parece, no entanto, de todo, o comportamento que cria equilíbrio pessoal, confiança e impacto nos outros.

Porque só cria impacto significativo, quem dá, quem é generoso, quem se expõe na sua verdade e quem se preocupa verdadeiramente com os outros. Foi a lição mais valiosa que aprendi nos meus cursos de ator!

Termino com uma citação de Daniel Faria: “Creio que o mais egoísta dos homens é aquele que recusa dar aos outros a sua fragilidade e as suas limitações. Quem recusa aos outros a sua pequenez, comete um dos mais infelizes gestos de prepotência. E porque aí se rejeita, aos outros não poderá dar senão o sofrimento da perda. Querendo-se sem falha, será o mais incompleto dos seres.”




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