30 de Dezembro de 2020









CARLOS BRITO

Vice-Reitor da Universidade Portucalense


Fotografias D.R.


10 lições que aprendemos em 2020


Muito poucos alguma vez sonhámos enfrentar os desafios que temos hoje pela frente. À crise sanitária seguiu-se uma crise económica que certamente dará origem a uma crise social e, quiçá, política.



Um dos efeitos da pandemia prende-se com a com­pressão do tempo pois em alguns meses viveu-se a­qui­lo que, de outra forma, demoraria anos a ocorrer. Isto significa que a expe­riência adquirida – independentemente de ser boa ou má – é particularmente rica. Do muito que aprendemos, saliento dez importantes lições para o mundo dos negócios… e também para a vida de cada um de nós.

1. O verdadeiro mundo VUCA — Dizia-se que o mundo em que vivíamos era VUCA (volatile, uncertain, complex and ambiguous). Estávamos iludidos pois só agora, com a turbulência criada pela convid-19, é que estamos a aprender o que é viver num contexto verda­deiramente volátil, incerto, complexo e ambíguo.







2. As pessoas em primeiro lugar — O primeiro desafio com que as empresas se debateram no contexto da crise sanitária não foi a quebra do volume de negócios mas a preservação da saúde dos seus colaboradores e clientes. Com o início da pandemia, as pessoas foram, desse modo, colocadas no topo das prioridades. Mas continuarão a sê-lo?

3. Digital is everywhere — A crescente digitalização da sociedade e da economia conheceu uma enorme aceleração. Desde o e-commerce ao teletrabalho, passando pelo ensino e pelas reuniões familiares realizadas através de plataformas digitais, tudo teve uma difusão que era inimaginável há apenas dez meses. É por isso que cada vez faz menos sentido falar em off-line versus on-line pois o digital já está em todo o lado.

4. O novo lar — É neste contexto que a casa passou a assumir uma variedade de papéis até há pouco tempo remetidos para filmes de ficção.

O lar, além de ser um sítio para viver, é hoje também um local para trabalhar, para aprender, para fazer compras, para entertainment e até para desenvolver novos negócios. Tudo isto passou a ser o dia-a-dia de muitas famílias de 3, 4 ou mais pessoas a compartilhar espaços de algumas dezenas de metros quadrados.

5. Abaixo os chefes, vivam os líderes — Os chefes dão-se mal com o teletrabalho porque nesse contexto é mais difícil mandar, fiscalizar e ameaçar. Por isso, mais do que nunca precisamos de líderes que orientem em vez de mandarem, apoiem em vez de fisca­lizarem e incentivem em vez de ameaçarem. Com os colaboradores em home office, a gestão faz-se através do acompanhamento dos resultados alcan­çados e não do controlo das tarefas realizadas.

6. Human skills — A incerteza do mundo em que vivemos exige de cada um de nós competências que transcendem em muito as hard skills. Já sabíamos que o mundo caminhava nesse sentido mas agora quem não tiver inteligência emocional, criatividade, capacidade de adaptação e resiliência não vai conseguir lidar com a situação atual e muito menos compreender o mundo em que acordar quando tudo isto passar.

7. Resiliência — Dentre as diversas human e soft skills necessárias, a resiliência assume um papel especial. Aliás, essa capacidade para lidar com a adversidade não é um atributo que se exija apenas às pessoas – ela é também essencial nas empresas e na própria sociedade em geral. Sem resiliência, a desestruturação das organizações será muito maior com todos os riscos daí decorrentes em termos da sua própria sobrevivência.

8. Economia low touch — Uma das principais alterações que se registam no mundo dos negócios decorre da necessidade de se manter o devido afastamento social. Vive-se hoje numa economia low touch, geradora de novos __


        comportamentos a que as empresas têm de se ajustar, reconfigurando as suas cadeias de valor e o relacionamento com os clientes.

        9. Fast track innovation — Mais do que nunca, a inovação é necessária para dar resposta aos tempos turbulentos que vivemos. Mas não se trata de inovação para dar frutos a longo prazo – trata-se, isso sim, de desenvolver produtos, processos e modelos de negócios que deem resposta aos desafios de ontem. Desde os laboratórios que estão a apostar no desenvolvimento de vacinas para combater o SARS-CoV-2 até às fábricas de confeção que passaram a produzir máscaras, todos mostram que só há uma maneira de dar resposta à crise: inovando rapidamente.

        10. O longo prazo é amanhã — A rapidez com que o mundo está a mudar não invalida a necessidade de uma visão estratégica. Só que o horizonte temporal aproximou-se de forma dramática. Para a generalidade das empresas, ter visão estratégica não é perspetivar a evolução nos próximos 5 ou 10 anos – ter visão estratégica em 2020 é perceber para onde vai o mundo nos próximos meses. O que significa analisar rápido, decidir rápido e agir rápido.

        Em suma, o ano que agora termina está recheado de ameaças difíceis de antever há 12 meses atrás. O desafio que todos temos pela frente não é apenas dar resposta às dificuldades que enfren­tamos. O desafio é também aprender com tudo aquilo que estamos a viver para que, quando o pesadelo passar, possamos aproveitar as novas oportunidades que irão surgir. Porque uma coisa é certa: o mundo nunca voltará a ser o mesmo. 


        Aqueles que mais rapidamente se adaptarem ao novo normal serão os que terão maior probabilidade de sucesso.

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