30 de Dezembro de 2020









ANDRÉ PINHEIRO

Direção de Qualidade


Fotografias D.R.




Yasuke e a Adaptabilidade em 2020

 


No longínquo ano de 1579, chegou a Kyoto (na altura a capital do Japão) uma comitiva de jesuítas liderada por Alessandro Valignano, um italiano que trazia na sua equipa um elemento diferente de tudo o que a sociedade japonesa da época conhecia. Integrada na equipa de frades e elementos de apoio estava um rapaz jovem, negro, com 1,88m de altura.




A

credita-se que seria originário do norte de Moçambique ou sul da Tanzânia, da região dos Makua, e tinha já passado algum tempo na Índia, e pelas suas raízes guerreiras seria provavelmente um dos guarda-costas da comitiva de missionários jesuítas. Não é certo qual fosse o seu nome original, mas acredita-se que fosse Yasufe, que os japoneses adaptaram para “Yasuke”.

Naquele tempo, a altura média do povo japonês era de 1,57m, pelo que este gigante, ainda por cima de uma cor diferente, causou sensação. Tanta que houve atropelos de pessoas a tentar um vislumbre do ser estranho, incluindo algumas mortes. Com isto, um poderoso senhor feudal, Oda Nobunaga, ficou interessado em conhecê-lo. Na primeira reunião entre ambos, Nobunaga ficou tão impressionado com as boas maneiras e presença do estrangeiro, ajudado pelo facto deste ter entretanto aprendido algumas palavras em japonês, que o convidou a ficar no Japão, ao seu serviço.

A capacidade de adaptação do estrangeiro foi tanta que em apenas 1 ano este já falava japonês fluente, e os seus dotes de guerreiro valeram-lhe uma subida vertiginosa ao nível de samurai. Foi o 1º samurai de origem estrangeira, e o único samurai negro da história!

Yasuke lutou ao lado de Nobunaga em pelo menos 2 batalhas, enquanto este desempenhava um papel importante na unificação do Japão, e tornou-se o seu mais fiel companheiro de armas até à morte do senhor feudal em 1582, atraiçoado por um dos seus generais. 

Depois disto, a história de Yasuke perde-se, mas acredita-se que tenha recolhido para um mosteiro jesuíta japonês até ao fim dos seus dias, provavelmente por volta do ano 1600.

Em 2019 foi revelado que o actor Chadwick Boseman se estava a preparar para produzir e protagonizar um filme sobre a vida de Yasuke, a que chamava “um dos segredos mais bem guardados da História”. Como se sabe, infelizmente não o conseguiu concretizar.

Esta capacidade de adaptação é rara. Se pensarmos no desafio em causa, quem de nós conseguiria aprender japonês fluente em apenas 1 ano, mesmo com a internet, computadores e livros, e ainda por cima simultaneamente aprendendo e dominando artes marciais, quanto mais em 1579?

Mas é essa capacidade de adaptação que faz de nós humanos. E isto é verdade tanto no Japão feudal do sec. XVI como nos dias de hoje, nas empresas, nas relações, nos empregos, etc. Por exemplo, quando mudamos de emprego encontramos uma nova realidade à qual temos de nos saber adaptar. Isso pode ocorrer de várias formas, desde esperar que o reconhecimento do bom trabalho surja naturalmente, até perceber “quem manda” (que pode não ser quem é o chefe no organigrama) e perceber como conquistar a sua confiança.

A um nível mais macro, as empresas enfrentaram em 2020 um inimigo que ninguém previa: uma pandemia mundial que afetou os negócios de forma generalizada, ainda que nem todas as áreas tenham sofrido com a mesma gravidade. Mas foram aquelas que melhor se souberam adaptar às novas

necessidades do mercado que melhor sobreviveram. Desde as empresas de têxteis que de repente começaram a produzir máscaras e fatos hospitalares, às empresas produtoras de bicicletas que aproveitaram o confinamento para crescer as vendas, ou até as empresas que de repente apostaram forte nas vendas online, entre tantos outros exemplos.

A norma ISO9001 e a IATF, por exemplo, dão grande ênfase à necessidade da empresa em perceber o contexto em que “joga”, quais as condicionantes do seu mercado e dos seus clientes e fornecedores, e utilizar essa análise na construção da análise SWOT. Mas em 2020 surgiu uma ameaça imprevista, pelo que a revisão à SWOT é essencial: A sua empresa está preparada para o famoso “novo normal”? 

Se há coisa que 2020 me ensinou, é a respeitar o ensinamento de Darwin: sobrevivem melhor as espécies (e as empresas e/ou as pessoas) que melhor se adaptam ao seu ambiente, e que melhor reagem às alterações, principalmente as imprevistas!



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