8 de Novembro de 2020









RUI GUEDES

Diretor de Vendas das Páginas Amarelas


Fotografias D.R.


2020: Um ano para esquecer?


Sempre fiz um esforço por separar o que é estar focado num objetivo de fazer balanços antecipados, até porque, recorro com frequência ao velho ditado que sabiamente nos diz que até ao lavar dos cestos é vindima.



Ora neste momento em que escrevo, o ano ainda não acabou e portanto talvez esteja a fazer pela primeira vez aquilo que sempre disse às Equipas com quem tenho trabalhado, para não fazerem: - Jamais levantem as braços como os ciclistas na reta da meta, pois há vídeos a provar que isto nem sempre é uma boa ideia.

Assim, assumamos que este teste­munho diz respeito ao muito que já vivemos nestes atípicos meses dos anos 20, pois a riqueza de conteúdos é tal que, por muito que se diga, muito ficará sempre por dizer. O desafio passa por uma retrospetiva que nos mostre o que fomos aprendendo e tenho que confessar que assim que me sentei para começar a escrever, quem sabe invadido por um espírito mais natalício, ocorreu-me que recentemente partilhei uns longos versos apenas e só com a família e os amigos, mas talvez possa fazer sentido ir deixando aqui alguns excertos.







O ano começou inundado de otimismo! Parece ter sido há muito tempo, mas naqueles dois primeiros meses transpirávamos inspiração, atividade, apostávamos em aumentar as Equipas com novos recrutamentos e reconhecíamos num jantar anual as performances extraordinárias consegui­das em 2019. Tínhamos arrojados planos para o período que se iniciava, com novidades na oferta comercial, no incremento do serviço, no reforço da entrega de valor e subitamente… tudo mudou!


Vivemos na corda-bamba 

Onde o imprevisto fede 

Damos um passo, descamba 

Olhamos, não temos rede

Percebemos de uma forma abruta a debilidade da nossa existência, abalados à escala global por um acontecimento que veio decidido a tudo mudar. Os impactos nas pessoas e nas organizações foram em muitos casos verdadeiramente catastróficos, sendo que, em paralelo, convém não esquecer, que muitos viveram dramas maiores que em nada decorreram desta malfadada pandemia. Vi amigos perderem um filho e revelarem uma coragem que julgo não possuir. Estive de mão dada longos minutos em conversa serena com uma vizinha de 87 anos atropelada, enquanto lhe prestá­vamos a primeira assistência e aguar­dávamos a chegada dos bombeiros. Estando  num  grupo  de  risco, conseguiu  manter-se  sempre  longe duma  infeção,  mas  acabou  por  ser traída por um acidente estúpido e ao fim de alguns dias o seu coração não aguentou.


Isto é descer à terra 

Sentir bem os pés na lama 

Olhar o que vida encerra 

Saber que pode haver trama


No entanto, este mundo vuca, por vezes impiedoso para muitos, não pode ser desculpa para a imobilidade! Claro que estamos ainda a lutar em várias frentes, claro que há setores em vias de ficarem completamente destruídos, claro que há um conjunto de consequências ainda não verdadeiramente visíveis, amortecidas por alguns apoios sempre insuficientes e claro está, que esta guerra se está a prolongar muito para além do que a maioria de nós esperava e todos somos alvos potenciais.


Mas pouco ou nada se ganha 

Com esta antecipação 

Entremos nesta campanha 

Lutemos com ambição


        Talvez caiba a cada um de nós um papel nesta longa jornada e todos somos poucos para tal empreitada. Mas aqueles que, como eu, têm a imensa felicidade de ter uma família fantástica, de estar com os pais e com os irmãos com os devidos cuidados, se sentem com uma energia imensa e saúde e têm amigos sempre por perto, têm uma responsabilidade acres­cida, até por respeito por todos aqueles que estão mesmo na primeira linha da batalha, não de metralhadora, mas vestindo batas de várias cores.

        Olho para trás e vejo que os três pilares que sempre tenho defendido, desde logo num artigo publicado a 22 de Março, são os que continuam a suportar a nossa atividade e parecem resistir à volatilidade dos dias. Colocar as pessoas em 1º lugar defendendo a sua saúde, manter a economia a funcionar e continuar a comunicar. Isto devidamente articulado com os Valores que até as mais pequenas organizações devem e podem ter, vai ajudando a dar alguma solidez às embarcações que flutuam em mares revoltosos e que parecem não ter porto à vista.

        E os que ficam, resistem 

        Vão acabar por vencer 

        Porque acreditam, insistem 

        Antes quebrar que torcer


        No meio de medidas públicas nem sempre articuladas e a revelarem-se muitas vezes reativas, percebe-se que liderar um país nestas condições não será de todo uma tarefa fácil, pois como todos aprendemos, os meios são sempre escassos e os fins são alternativos. Contudo, quando nos centramos na esfera das famílias e das empresas, se por um lado vemos ainda o desespero dos que não parecem ver luz ao fundo do túnel, somos surpreendidos a cada esquina por uma vontade crescente de

        fazer, de dar a volta, de lutar e encontrar formas diferentes de chegar à meta. Há novos negócios a surgir, há reconversão de funções, há apostas a aparecer em contraciclo, há empresas a aumentar investimentos e pessoas a assumirem que, mais do que estarem a saber lidar com o que se passa, estão a preparar já o dia de amanhã.

        Sem querer entrar a fundo no interessante e sempre polémico conceito de criatividade, que tem especialistas a ele dedicados em permanência e com quem muito se pode aprender, não deixa de ser curioso que a própria palavra tenha sido incluída no Dicionário Inglês Oxford, apenas em 1933. Está portanto em causa um conceito relativamente recente, que viria apenas a massificar-se em meados do século XX. A este propósito, referem alguns estudiosos que a criatividade surge com uma resposta às mudanças sociais e tecnológicas, como sejam por exemplo a corrida ao espaço ou mesmo a globalização das comu­nicações. Não se pretende obvia­mente concluir daqui que antes disto não existia criatividade, até porque seria desde logo uma ofensa ao Renascentismo e até à Antiguidade Clássica, mas sem querer estabelecer qualquer relação de causa­lidade, constato que 1933 é exatamente o ano em que surge a New Deal apre­sentada por Roosevelt em resposta à Grande Depressão de 1929.

        Será que são os acontecimentos com grande impacto que impelem o Homem a ser criativo e estamos portanto perante uma resposta adaptativa, ou pelo contrário, a criatividade está na origem de muitos desses acontecimentos? 

        Na realidade que atualmente vive­mos, parece óbvio que este conceito se perspetiva como um processo que surge em resposta a algo com que o mundo foi inesperadamente confrontado, sem pre­ju­ízo de acreditar que a criatividade pode ser até um fim em si mesmo.


        RAPIDEZ

        Sem querer colocar em causa a importância da estratégia em cada organização, é fundamental em clima de guerra ter a capacidade de avaliar, ajustar e tomar decisões com a rapidez que o momento exige. Verifiquei em vários momentos que as empresas se anteciparam ao Estado e tiveram a coragem de… não esperar.


        RISCO

        O afastamento físico das pessoas, nas empresas em que isso foi possível, revelou-se fundamental para que a atividade continuasse com minimização dos risco de contágio, já que de outra forma, para além das pessoas, que são a prioridade, poderia estar em causa a sobrevivência da própria empresa. Sei de empresas que estão paralisadas porque se mantiveram numa atividade dita


        normal e um elemento, apenas um, … testou positivo. 


        TELETRABALHO
        O teletrabalho é hoje uma realidade implantada em muitos setores, pois as empresas que ainda não o sabiam, constataram que as pessoas são maiori­tariamente responsáveis e que não necessitam de uma regulação da sua atividade balizada por um relógio de ponto. A oportunidade de reinventar o escritório estourou nas nossas mãos e agora… a bola está do nosso lado.

        PROXIMIDADE
        A exigível proximidade com todas as pessoas, especialmente com aquelas com quem trabalhamos diretamente, não pode ser desculpada pelo facto de não estarmos juntos fisicamente num mesmo local de trabalho, já que dispomos de um conjunto de plataformas que suportam essa mesma proximidade.

        COMUNICAÇÃO
        ­A comunicação entre as pessoas tem evoluído muito positivamente. Verifico que nos primeiros tempos em teletrabalho era mais difícil a empatia, a cumplicidade, a criação de laços mais profundos. Hoje tudo é mais fluído, as conversas surgem com maior natura­li­dade e fez-se um caminho muito inte­re­s­san­te a este nível.

        INFORMAÇÃO

        Nas trincheiras a informação é difusa e é fácil não ser percebida por todos da mesma forma. É necessário um completo alinhamento nos conteúdos que são passados e isso começa desde logo na gestão de topo, sob pena de incorrer­mos em risco de nefastas disso­nân­cias. Deixando de lado a Semântica para os

        especialistas, sempre vi a Informação como uma mensagem com um só sentido e a Comunicação como tendo subjacente feedback. Ambas são importantes!


        PROPÓSITO

        A obrigatoriedade da mudança que a todos nos foi imposta, colocou-nos à prova e esticou a nossa capacidade de adaptação até  um nível que, inicial­mente, pareceu a muitos não implemen­tável. Quando existe um propósito e com transparência se explica o Porquê do rumo que temos que seguir, somos positivamente surpreendidos com a forma como as pessoas se agigantam, agarram na tarefa e fazem as coisas acontecer.


        DIGITALIZAÇÃO

        Apesar do processo global de digitalização em curso, os primeiros passos dados nesta área por muitas empresas, foram impostos por uma conjuntura que a isso obrigou. 

        A importância do Marketing Digital disparou, o comércio eletrónico cresceu de forma exponencial e no meio de tudo isto é muito gratificante poder atuar numa área de atividade em que sentimos que estamos a ajudar e a contribuir para dar um verdadeiro impulso a muitos negócios.


        VALORES

        Somos humanos, falhamos, temos dúvidas e é por isso reconfortante ter algumas referências que nos coloquem novamente nos trilhos sempre que sentimos que há um desvio de trajetória. Os Valores revelam-se como que um verdadeiro farol, com uma importância amplificada pela conjuntura atual. Temos dúvidas? Relemos e lá está a bússola a apontar o caminho. 



        CLIMA

        As decisões que tomamos têm impacto na vida das pessoas. Sabendo que, especialmente em tempo de guerra, as decisões não têm como fim último a felicidade individual, é no entanto crítico sentir o clima organizacional e perceber em cada momento como é que as pessoas estão a sentir a Mudança. Afastados fisicamente este desafio é maior e não se compadece com tentativas de adivinhar. Perguntemos!


        EQUILÍBRIO

        Em Vendas, há sempre algo mais que pode ser feito em cada dia. Mais um contacto, mais prospeção, mais uma proposta e tudo isto somado ao fim de um mês representa um acréscimo de dezenas de oportunidades de negócio. Isto já todos sabíamos! O que agora aprendemos foi que no trabalho a partir de casa é fácil resvalar para um descon­trole de horas no qual se corre o risco de não equilibrar diferentes dimensões. É necessário ser altamente produtivo quando se trabalha e é necessário saber parar.


        LADO B

        Numa altura em que a pureza do vinil parece ter-se já reinstalado, é inte­ressante lembrar que além da face mail visível, há sempre um outro lado, porventura oculto, mas não menos importante. Tendo saúde, aproximamo-nos do equilíbrio conciliando as tais diferentes dimensões que variam obviamente de pessoa para pessoa. No meu caso, se em 2019 terei feito bem mais de 1.000 Km a correr, este ano vamos ficar pelos 3 dígitos, até porque praticamente não houve provas, mas as corridas regulares continuam a ser altamente revigorantes. A música está sempre presente, bem como a leitura, a escrita e a proximidade da família e dos amigos.


        FORMAÇÃO
        Quando tudo muda, não chega dizer às pessoas com quem trabalhamos que a

        realidade mudou e portanto temos que nos adaptar. Exige-se bem mais do que isto! Para o caminho que se está a traçar, foi fundamental o estabelecer de par­cerias, nomeadamente em termos de formação, com pessoas que percebem a nossa realidade, fazem também um empático esforço de aproximação e comungam de um mesmo espirito. 

        É crítico parar, formar, fornecer novas ferramentas e encontrar formas criativas de aprender, com Gamification por exemplo. Adicionalmente, este está a ser um ano em que as oportunidades de aprender se multiplicaram. Além daquilo que a realidade nos obriga a aprender, criaram-se imensos fóruns de partilha, com iniciativas diversas que passaram por debates, cursos online, webinares, tudo isto, nas mais variadas áreas de atividade. 


        PESSOAS 1

        Quando escolhi esta Kw, revi o texto e verifiquei que já escrevi uma dúzia de vezes a palavra pessoas. Certamente não terá sido por acaso! Os Supervisores das Equipas que lidam diariamente com os Clientes, revelaram mais uma vez o seu papel absolutamente fundamental nas organizações ao liderarem, calibrarem, ao gerirem conflitos, ao lidarem com momentos menos fáceis, mantendo sempre com toda a determinação o rumo que foi sendo traçado. Sabendo que uma das funções de quem lidera é criar líderes, é fantástico ver pessoas crescer em cada dia.


        PESSOAS 2

        Os profissionais de venda, especial­mente os F2F, levaram um murro no estômago com tanta mudança, que incluiu a necessidade de contactar os Clientes remotamente. Foram desenvol­vendo ao longo de anos um conjunto de aptidões no relacionamento presencial e era nesse cenário que sentiam que davam o melhor de si e entregavam maior valor aos Clientes. Com o seu Querer, revela­ram ter uma capacidade de adaptação digna de reconhecimento!



        PESSOAS 3

        O estar fora do escritório diariamente não se tornou uma barreira no criar de novas relações e a prova disso é que ao longo deste ano fui conhecendo pessoas extraordinárias nas mais variadas áreas, que se estenderam da Formação ao meio Académico, passando pela Consultoria, Vendas, Marketing Digital, entre muitíssimas outras. É fortemente enri­quecedor conhecer pessoas compe­tentes e sobretudo é bom conhecer boas pessoas.


        Será este então um ano para esquecer?


        Quando olhamos para o caminho que já percorremos, quando recordamos todos os obstáculos que já ultra­passamos, quando interiorizamos o esforço de adaptação, quando olhamos tudo aquilo que fomos sendo capazes de construir e chegamos até aqui a arfar como quem termina uma maratona, não podemos de forma alguma dizer que este é um ano para esquecer.


        Saibamos içar vela 

        A favor temos a História 

        Já outras guerras vivemos 

        E no fim veio a vitória


        Esquecer, seria desperdiçar um avanço no nosso acumular de experiên­cias que nos podem deixar marcas de guerra, mas que nos vão tornar segu­ramente mais fortes. Apesar de estarmos a atravessar uma conjuntura que vai marcar a ferro e fogo o mundo em que vivemos, isto vai passar! Quando chegarmos a esse momento, muitos de nós vão poder olhar para trás com orgulho e dizer que estiveram cá e à sua maneira contribuíram da forma que puderam para termos um novo futuro.


        Oh vírus descontrolado

        Que todos queres arrasar 

        Vamos deixar-te prostrado 

        Somos nós quem vai ganhar



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