1 de Julho de 2020





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HUGO GONÇALVES

Executive Coach | Senior Organizational Engineer 

Blogger @ www.knowmad.pt

Fotografias D.R.


Economia Low Touch?
Ativa o teu High Sense.


Sim, sei que parece aquelas frases exóticas tipo “Tive de fazer downsizing do meu lifestyle”.

Mas peço-te só alguns minutos de atenção e mente aberta para poder partilhar contigo nestas linhas o que realmente esta expressão significa para mim e que impacto pode ter nos Profissionais e Organizações. Confia!

 





A arte da previsão consiste em antecipar o que acontecerá e depois explicar o porque não aconteceu. 

Winston Churchill




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ecebi uma news­letter do Boards of Inno­vators que apre­senta um estudo sobre o que eles denominam por Low Touch Economy, que segundo este think thank vai “perdurar” durante 2 anos.

Este mapa mental resume os principais cenários e a ligação que eles fazem entre os nossos comportamentos individuais, profissionais, sociais e de consumo. Para um grande amigo meu que é fã das distopias, tem aqui muito com que se entreter. Alguns exemplos: 


  • Ainda mais ansiedade/solidão devido ao afastamento social/low touch; 
  • Delivery e TakeAway vão crescer de forma exponencial para tudo – comida, roupa, entrega de produtos, etc.; 
  • Confiança degradada na segurança epidemiológica de pessoas e produtos; 
  • Contacto limitado com gerações mais velhas; 
  • A importância das pessoas imunes certificadas – como profissionais e consumidores;

Uma das formas que considero interessante para lidar com o futuro é não imaginá-lo como uma caixa fechada.



Projetemos antes cenários (3 ou 4) dentro dos contextos que nos são importantes e antes de definir um “plano” para cada um deles, é importante definir o que cada um deles vai exigir de nós como Pessoas (emoções, forma de estabelecer relações e know-how).

Em 2019, vários especialistas de algumas áreas como commodities, me­teorologistas, inovação, etc. estavam relu­tantes em prever algo para além de 400 dias. Porquê? Porque nos últimos 5 a 10 anos, grande parte do mundo deixou de ser complicado e passou a ser comple­xo — o que significa que sim, há padrões, mas que não se repetem com regula­ri­dade. Significa que pequenas mudanças podem causar um impacto despro­por­cionado. Significa que a experiência nem sempre será suficiente, porque o ecos­sistema continua a mudar muito rapidamente.


Hoje o Mundo é Complexo e Líquido. É um Vulcão.

Num ambiente que desafia tanto as previsões, focarmo-nos apenas na performance não só não nos ajuda, como especificamente mina e corrói a capa­cidade de adaptação e resposta. Então, se a eficiência deixa de ser o nosso princípio orientador, como poderemos encarar o futuro? Que tipo de pensamento nos irá realmente ajudar? Talvez passar do Low Touch para o High Sense. Segundo Margaret Heffernan, enquanto no passado pensávamos muito na gestão “just-in-time”, agora temos de começar a pensar no conceito “just-in-case”, e prepararmo-nos para acontecimentos que, certamente, ocorrerão mas que se mantêm especificamente ambíguos.

Nesta entrevista recente dela, podes aprofundar o racional que está por detrás desta visão a qual subscrevo totalmente.

Reparei que estes dias são a prova provada que existindo um sentido de urgência comum, conseguimos auto organizarmo-nos de forma relativamente rápida. O mais impactante é este contex­to promove uma autonomia individual que gera valor ao grupo porque o melhor de cada um de nós vem ao de cima automaticamente – o líder, o que age, o que investiga, o que motiva, o que imagina o futuro e riscos. Ou seja, isto é tão esquisito e fascinante ao mesmo tempo – o caos parece que permite a criação orgânica das melhores estruturas. É como se nós, como Pessoas estivés­se­mos a colocar em prática os mecanismos das células e evolução que tanto mistério nos causa. E essa prontidão, a construção de alianças, a imaginação, as experiên­cias, a coragem — numa época impre­vi­sível, são fontes tremendas de resiliência e força. 

Não são eficientes, mas dão-nos capacidades ilimitadas de adaptação, vari­ação e invenção. Quanto menos sabe­mos do futuro, mais iremos precisar des­tes tremendos recursos de compe­tências humanas, desalinhadas e impre­visíveis.

Não vai dar para aguentarmos muito tempo nos ZOOMS e TEAMS da vida.


Até mesmo fisiologicamente não aguentamos porque como são ecrãs e interações dinâmicas, é como se estivéssemos 8 a 10 horas seguidas a jogar CALL OF DUTY ou FIFA. E eu sei do que falo.

Nos grupos de trabalho em que tenho participado até mesmo os mais ferrenhos nómadas digitais ou pessoas que sempre trabalharam de forma remota entendem que o modelo de trabalho que “criamos” para reagir a este contexto não será sustentável por mais algum tempo.

Eu já tenho um “fato de astronauta” e respetivos acessórios encomendados para o cenário de, no limite, apenas podermos estar juntos a trabalhar em formato “clean room”.

Esta “nova” dependência da tecno­lo­gia também é paradoxal. Por que nos protege e salva mas também inibe e “desempodera” as nossas competências emocionais e necessidade básicas como seres humanos como o toque, o cheiro, a cum­plicidade e porque não as feromonas. 


A dura e profunda verdade é que o futuro é desconhecido, que não o conseguimos mapear senão quando lá chegarmos.


Mas tudo bem, porque temos muita imaginação — se a usarmos. Temos profundos talentos de invenção e explo­ração — se os aplicarmos. Temos cora­gem suficiente para inventar coisas nun­ca vistas. Se perdermos essas compe­tências, ficaremos à deriva. Mas, se as aperfeiçoarmos e as desenvolver­mos, po­de­mos ter qualquer futuro que escolhermos.


Então e o que fazer? Algumas sugestões práticas para desenvolveres o High Sense:


  1. Dedica tempo a refletires, criares e planeares coisas que provavelmente nunca serão necessárias
Isto parece contraproducente numa altura que estamos focados em gerir o agora. A questão é que muitas das difi­culdades que passamos agora advém do foco quase exclusivo na eficiência e não na agilidade perante a imprevisi­bi­lidade. Alex Osterwalder tem uma abor­dagem interessante que podes adaptar para o teu contexto ou desafio – Explore and Exploit. Basicamente signi­fica dedicar 10% a 20% do nosso tempo e recursos a criar, criar e criar em modo Human, sem esperar retorno.

2. Procura a Curiosidade 

Precisamos de mais equipas dedi­ca­das exclusivamente à exploração do que se passa à nossa volta. Não há nada nesta “quarentena” que te impeça de seres curioso, conversares, procurar sparring partners novos, fazeres ques­tões, fazeres ____

cross-mentoring no sentido de desen­volveres relações, amizades, alian­ças fortes, sabendo que algumas delas poderão nunca ser usadas com um benefício direto. Explora as tuas atuais e futuras Realidades Laterais.


3. Aprofunda a Diversidade

Hoje em dia tens 30 mil palcos para poderes expressar a tua voz. Basta esta­res numa Zoom ou Webinar. Mas isso não chega. Para além da acessibilidade aos webinars, contribuis para a diversi­dade ao seres convidado para partilhar ou pertencer à reflexão, és incluído quan­do podes ter o teu espaço de voz e par­tilha e pertences quando a tua voz é de facto escutada e a tua mensagem interage e cria impacto de emocional, relacional e a nível de know-how nos outros.


4. Antes de seres Soldado, sê o General (Estratégia)

As competências estratégicas não estão muito desenvolvidas na grande parte dos profissionais. Porque estra­té­gia, planeamento e imple­men­ta­ção esta­vam segmentados por hierar­quias, não por valor, comunicação e foco no cliente e nas pessoas. Nesse sentido desenvolve as tuas competências estra­tégicas crian­do cenários, não planos. Aqui podes ver um Scenario Map que desenvolvi no âmbito de um think tank internacional de Liderança e Estratégia onde contribuo e aqui tens um template em branco para poderes fazer a tua própria viagem de helicóptero. Atenção que é um exercício que requer trans­parência e olhares de frente para as coisas.


5. Impermanência & Aceitação

A Importância e Impacto da Aceitação da Mudança e do Vazio (ou perda do que estamos habituados ou achamos confortável) estão devidamente documentadas em várias práticas, filosofias e reflexões de corpo, mente e espírito milenares. Não tenho muito a acrescentar aí. J Mas penso que neste texto e também neste poderás ter uma ideia de como essas perspetivas nos podem ajudar a lidar com estes tempos exóticos no que ao Capital Humano e Desenvolvimento Organizacional diz respeito.


6. Ownership e Wholeness

É necessário um upgrade da nossa maturidade como Pessoas tendo em conta o que estamos a lidar. Não falo do binómio criança-adulto, falo sim de conseguirmos da melhor forma possível sentirmo-nos e sermos responsáveis pelas nossas decisões e ações, bem como sermos os nossos melhores amigos quando os resultados ou consequências não são aquelas que desejávamos ou ainda mais importante precisavam. Para isso temos que abraçar com a maior leveza e descontração possível o famoso Síndroma do Impostor.



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