4 de Novembro de 2020









ANA ISABEL LUCAS

Consultora e Formadora 


Fotografias D.R.



As organizações Teal – uma utopia ou uma solução?



Uma empresa tem de dar lucro, ponto! Tem de entrar mais dinheiro do que aquele que sai. E se lhe dissessem que isto não é verdade? Que o objetivo das empresas é fazer as pessoas felizes? Estas duas crenças estão em disputa há quase 40 anos.

 


N

a longa jornada do empreendedor, estes princípios fazem par­te da primeira aprendizagem e vai carregá-los como um estigma durante to­da a vida e, uma vez enraizada, a aprendizagem faz parte integrante das suas crenças e valores. Assim, nascem as verdades absolutas!

São verdades como estas que limitam e aprisionam o pensamento. Não vemos as coisas como elas são, mas a partir daquilo que nós somos e em que acreditamos.

Em linha com este pensamento, Buckminster Fuller afirmou “Você nunca muda as coisas lutando contra o que já existe. Para mudar alguma coisa, construa um novo modelo que faça com que o modelo atual se torne obsoleto”.

E se um dia surgisse alguém com uma visão totalmente diferente das verdades em que acreditamos? Que afirmasse que é possível criar organi­zações sem burocracia e rivalidade, sem stress e exaustão, sem resignação e ressentimento, sem exibição das hie­rarquias do topo e o trabalho angustiante daqueles que estão na base?

É este o propósito de Frederic Laloux, no livro “Reiventing Organizations”, que nos transporta através da sua visão para um mundo organizacional de cor verde-azulado – o Teal.

De acordo com Laloux, os modelos de gestão empresarial conhecidos estão ultrapassados e encontram-se no seu limite. Existe uma insatisfação gene­ralizada, tanto na base como no topo.



No topo, o sofrimento é silencioso. As lutas internas e os jogos de poder têm um preço. Na base o trabalho é pesado, sem paixão e sem propósito. Nem os profissionais vocacionados escapam a esta insatisfação.

A solução passa por criar organi­zações com alma, que saibam extrair o potencial humano, promovendo um desenvolvimento mais sustentável a todos os níveis.

Para que isso seja possível, o ser ____


humano tem de entrar num novo estado de consciência com uma nova visão do mundo e, a partir deste, colaborar com novas formas de restaurar a sua interação com o mundo que o rodeia.

Ao longo da história, o ser humano passou por uma série de estados que lhe permitiram evoluir as habilidades ao nível cognitivo, moral e psicológico. Cada transição para um novo estado de consciência, conduziu-o a uma nova Era e, por conseguinte, a novas invenções.

 





A história é um guia que mostra o caminho para um novo estado de consciencialização humana. Sempre que o ser humano muda a forma de pensar, cria algo.

Esta ideia da “consciencialização humana” é fundamentada através dos vários estados de evolução encontrados ao longo da história da humanidade. Se em cada estado evolutivo nasce uma oportunidade para criar um modelo organizacional, então está iminente um novo modelo.

Estes estados são ilustrados através de cores e são baseados nas investigações de Ken Wilber, defensor acérrimo da teoria integral.

Cada modelo organizacional teve os seus avanços, sendo caracterizado por metáforas orientadoras de liderança. Classificados por cores, os modelos organizacionais situam-se entre o vermelho e o verde. Esta classificação começa com as organizações vermelhas, cujo principal avanço se caracteriza pela divisão do trabalho, a autoridade e o comando, sendo orientado pela “alcateia”. Seguem-se as organizações âmbares, as organizações laranja e as organizações verdes. Os avanços que caracterizam este último modelo de organizações são o empoderamento, a cultura direcionada por valores e utilizam o modelo dos stakeholders. A metáfora orientadora é a “família”. 

As práticas das organizações verdes estão em ascensão. É a partir destas que emerge o novo modelo, as organizações verde-azulado - Teal.

 

O que traz de novo o modelo das organizações Teal?


O local de trabalho deve ser um lugar de realização pessoal e crescimento. As novas gerações exigem mais do que um salário em troca de esforço. Por isso, o novo modelo de organizações Teal procura dar resposta aos atuais desafios associados à gestão de empresas.

Os avanços que caracterizam este modelo são a AUTOGESTÃO, INTEGRALIDADE e PROPÓSITO.


A Autogestão é baseada em relações entre pares, as pessoas têm autonomia no seu domínio. O poder e o controlo não estão vinculados à posição do líder.


A Integralidade fundamenta-se no envolvimento das pessoas ao nível das suas capacidades, interesses e aspirações. Ambientes com total liberdade de expressão. Energia, paixão e criatividade.


O Propósito caracteriza-se por uma direção própria com estratégias fluidas, baseada nas exigências do ambiente operacional. Altamente ágeis com práticas de “sentido” e “resposta”. O foco não são os resultados financeiros nem no valor para os acionistas, mas no melhor contributo para o propósito principal: a missão organizacional.


A cor é um identificativo do estado de evolução das organizações. Os avanços não são lineares para todas as orga­nizações. 

        Mesmo nas sociedades desenvol­vidas, ainda subsistem os modelos das organizações vermelhas e âmbar e, de forma lenta, começam a aparecer as organizações Teal.

        Laloux, investigou 10 organizações de diferentes setores da economia, com características Teal bastante sólidas e que se podem afirmar como casos de sucesso.

        Longe da utopia, este modelo parece indicar uma solução para dar resposta aos atuais desafios da gestão.

        Este novo modelo traz uma abordagem diferente e contém um desafio intrínseco em forma de mudança. Esta mudança não passa somente por repensar processos e metodologias, ela incide essencialmente no individuo e na sua forma de pensar. Este tem de pensar, necessariamente, Teal!

        A parte chave do processo de mu­dança começa na liderança e nos pro­prietários. Estarão estes preparados para romper com os jogos de poder e toda a adrenalina que daqui advém?

        Os resultados da investigação de Laloux mostraram que o caminho a seguir é Teal. O que fazer com os modelos de organizações vermelhas, âmbar e laranja que ainda subsistem?

        Para as organizações que tentam afinar velhos modelos de gestão com raízes pré-históricas a contextos de turbulência, fica a reflexão de Peter Drucker, “o maior perigo não é a turbulência em si – é agir com a lógica de ontem”.



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