1 de Julho de 2020





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VÍTOR BRIGA

Formador de Criatividade e Comunicação


Fotografias D.R.


E.U.A. – OS PERIGOS DO EGO 


‘Conheço pessoas que andam na rua como se fizessem um favor ao acto de andar. É perigoso julgarmo-nos maiores do que a nossa tarefa – explicava o senhor Valéry.’ Gonçalo M. Tavares



Sabia que, se quiser, pode adotar um banco de jardim no Central Park em Nova Iorque? A administração do parque criou um projeto chamado “Adopt-a-Bench” com o objetivo de arrecadar fundos que permitam uma melhor manutenção dos mais de nove mil bancos existentes em todo o parque. A pessoa que adota o banco tem o direito de aí colocar uma placa com a mensagem que quiser. Ler essas mensagens é inspirador, pois encontrei desde mensagens filosóficas, declarações de amor, homenagens, expressões de gratidão… até uma mensagem tão simples, como a que fotografei e que podem ver neste artigo, a desejar um bom dia!

Sendo um “cinéfilo”, cresci a ver muitos filmes passados na “Big Apple”, nomeadamente, filmes do Woody Allen ou do Martin Scorsese, e, como tal, chegar a esta cidade é viver intensamente todo um imaginário de histórias e imagens com as quais me tornei quem sou. É de facto, uma cidade fascinante!

A primeira vez que estive em Nova Iorque foi pouco tempo após os ataques de 11 de setembro e, talvez também por isso, encontrei uma cidade muito plural, inclusiva e unida. Recordo-me de as pessoas nas ruas, locais públicos e no atendimento serem sempre muito gentis comigo. Esta história dos bancos do Central Park é apenas um pequeno exemplo dessa conexão humana, quase comovedora.



Ler essas mensagens é inspirador, pois encontrei desde mensagens filosóficas, declarações de amor, homenagens, expressões de gratidão…

A segunda vez, mais recentemente, fui em trabalho receber uma formação com um “guru” de uma área específica da formação comportamental. Ele é, sem dúvida, o melhor a escrever na sua área, com conteúdos muito úteis, autor de best sellers, antigo jornalista e apoiante declarado de Donald Trump (tendo em conta que a sua personalidade deu origem ao título deste artigo, este facto pode ser coincidência ou não…).

Foi um dos formadores menos empáticos que tive até hoje. Através dele tive “um cheiro” de uma elite americana autocentrada, muito menos interessante do que as pessoas que conheci nas ruas, e na vida dos bairros tradicionais e culturais, na primeira visita que fiz. Sabendo que podemos ler os conteúdos nos livros, aquilo que mais me chamou à atenção foi a forma como este formador dava a sua formação: era um exercício de ego e de expressão de brilhantismo, que não admitia o debate ou a dúvida sobre as suas propostas.

Era um excelente investigador, mas era um mau comunicador porque se colocava numa posição de superioridade. Isto faz-me pensar nos perigos do ego quando não sabemos gerir os nossos talentos ou o nosso sucesso.

Ao longo da minha carreira como formador, tenho reparado que os grupos me aceitam sempre melhor e obtenho melhores resultados, quando estou disposto a ouvir os outros,   a valorizá-los e a adaptar as minhas propostas de acordo com as suas necessidades. Concluo que quando não estou demasiado preocupado com a minha imagem ou com aquilo que possam pensar sobre mim, é quando tenho ideias mais impactantes e maior sintonia com os formandos. Foi também um americano, Roosevelt, que escreveu: “Nobody cares how much you know, until they know how much you care.”

Baseando-se em cinco anos de pesquisa exaustiva, David Marcum e ____________________

Steaven Smith estudaram a forma como uma má gestão do ego pode ser um grande obstáculo ao sucesso e os cuidados a ter. O livro tem um título sugestivo, “Egonomics – O que torna o ego o nosso maior activo (ou o nosso mais elevado passivo)”. Os autores concluíram que podemos, numa simples reunião ou conversa, observar indícios claros das atitudes que manifestam um ego que se está a tornar um obstáculo:

1 - Ser comparativo - Escreveu William Saroyan que “todo o homem no mundo é melhor do que alguém, e não tão bom como alguém”.  Estar constantemente a comparar-se com os outros é uma terrível armadilha da competição, pois está a perder tempo a querer ser tão bom ou melhor do que alguém que deixa de estar focado em expandir o seu potencial único – o seu próprio caminho. A comparação não deve ser com os outros, mas sim com aquilo que já fez e que quer ainda atingir.

2 - Ser defensivo - Este é um dos indícios que pode ser mais observado nas más reuniões: ver alguém que está mais preocupado em defender-se a si próprio, do que em defender as suas ideias. Quando defendemos os nossos argumentos, como se fossem a nossa identidade, estamos tão preocupados em querer ficar bem vistos e em não admitir um eventual erro, ou a necessidade de mudar algo em nós, que o centro passa a ser apenas a nossa necessidade de autoafirmação, quando o desejável seria gerar soluções criativas para a resolução do problema de todos os envolvidos. Lembre-se de que não é de si que eles não gostam, é das suas ideias!

3 - Exibir brilhantismo - O que é paradoxal neste indício é que, como dizem Marcum & Smith, “quanto mais queremos e esperamos que as pessoas reconheçam, apreciem, ou fiquem espantadas perante a nossa esperteza, menos elas ouvirão, mesmo que tenhamos as melhores ideias”. Assim, há

que distinguir a atitude de exibir – que nos coloca numa posição de superioridade e nos afasta do outro, da atitude de partilhar – que nos conecta com os outros e nos coloca ao mesmo nível.

4 - Buscar aceitação - Este indício pode não decorrer de um ego excessivo, mas antes de um ego insuficiente. Pode manifestar uma baixa autoestima, que procura constantemente ser valorizada pelos outros. Uma obsessão para agradar que impede de contribuir criativa e positivamente. O que é irónico é que quanto menos preocupados estivermos em ser aceites pelos outros, mais aceitação e confiança verdadeira vamos obter. Atenção que uma das estratégias mais vulgares para ter a ilusão de que se está a recuperar o valor e obter aceitação é tentar diminuir o valor dos outros. E assim todos perdemos!

Então, quais são as melhores atitudes para manter o ego como um aliado? Segundo Marcum & Smith: a humildade, a curiosidade e a verdade. “A verdadeira humildade é autoestima inteligente que nos impede de termos uma ideia excessivamente boa ou má a respeito de nós próprios. Lembra-nos quão longe chegámos e, ao mesmo tempo, ajuda-nos a ver quão longe estamos daquilo que podemos ser”, sublinham os autores.




Esta viagem lembrou-me que, para o bem e para o mal, as pessoas podem esquecer o que dizemos e podem esquecer o que fazemos, mas nunca vão esquecer a forma como as fazemos sentir.



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