Como será o depois?

Muitas têm sido nas últimas semanas as tentativas de resposta a esta questão: “Como será o depois?”.

Tiago Abalroado
1 de Maio de 2020

Nos jornais, na televisão, em revistas, na Internet, vemos vários especialistas de diferentes áreas profetizarem sobre o que vai mudar, qual vai ser o impacto da pandemia na vida quotidiana, na economia, na política e em muitos outros domínios científicos e sociais.

Apesar de tudo o que se diz e se escreve, e sem menosprezar qualquer análise ou perspetiva a respeito, parece que a resposta será simples e óbvia: não sabemos!

Conseguiremos, no entanto, com relativa facilidade e com maior ou menor grau de aprofundamento, dizer “o que influenciará o depois?”. E neste caso será quase um lugar-comum afirmar que a resposta mais básica e agregadora é: o que aprendemos!

Frei Raniero Cantalamessa, na sua pregação de Sexta-feira Santa, a partir da Basílica de São Pedro, em Roma, lançou o que pode ser considerado uma espécie de mote à explicitação desta resposta abrupta: “a pandemia de corona vírus despertou-nos bruscamente do perigo maior que os indivíduos e a humanidade sempre correram, o do delírio de omnipotência”. Aprendemos que não podemos tudo e aprendemos que todos precisamos de todos.

1. Aprendemos que o desenvolvimento e o crescimento económico são produto do esforço coletivo da sociedade, das empresas, das organizações sociais e dos serviços do Estado, e que qualquer desequilíbrio que afete a paz social ou algum dos agentes deste sistema poderá ser rastilho para o colapso.

2. Aprendemos que, não obstante questões ideológicas ou políticas, temos ao nosso serviço um Estado que tem a missão de ser suporte, âncora e alavanca da sociedade e que, por essa razão, devemos no nosso dia-a-dia, não só enquanto contribuintes, mas acima de tudo como cidadãos responsáveis e empenhados, contribuir para o seu robustecimento e para a sua vitalidade.

3. Aprendemos que o tecido empresarial e produtivo, além de motor nuclear do sistema económico, é fonte de sustento das famílias e garante da autonomia e da soberania do país, sendo, por isso, fundamental a aposta na sua fortificação e o incentivo à sua expansão e diversificação.

4. Aprendemos que Portugal é detentor de um setor social e solidário singular, feito de instituições que, cobrindo todo o território, protegem e apoiam continuadamente, sem dar muito nas vistas, as crianças, os jovens, os cidadãos com deficiência, os idosos e as pessoas mais vulneráveis, e que, por essa razão, são merecedoras do nosso acarinhamento e envolvimento coletivos.

5. Aprendemos que, apesar da importância de todas as atividades profissionais, os médicos, os enfermeiros, os técnicos e auxiliares de saúde, os bombeiros, as forças de segurança e os trabalhadores das IPSS assumem um papel fulcral nas comunidades, lutando direta e diariamente pela salvação e manutenção da dignidade da vida dos cidadãos, expondo-se a riscos e perigos inimagináveis e fazendo, não raras vezes, sacrifícios pessoais muito duros.

6. Aprendemos a viver em e com a família, a conhecer melhor quem está ao nosso lado e a compreender a importância das cedências nas relações para podermos contar com contextos familiares harmoniosos e, a partir deles, sermos agentes de felicidade para nós próprios e para todos aqueles com que nos relacionamos dentro e fora de casa.

7. Aprendemos a dar mais valor a tudo: aos afetos, à proximidade, à família, aos amigos, aos colegas, às conversas, ao trabalho, à educação, à religião, à cultura, aos hobbies, à tecnologia, à vida em sociedade...

Face a tudo o que aprendemos, podemos estar certos de que o depois não será igual ao antes. Não seria sequer desejável que fosse. Para já é certo que poderemos ter esperança numa regeneração do paradigma social que resultará, em primeira instância, de uma maior intensidade na vivência de cada momento por cada pessoa.

Artigo em formato PDF

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