Relações pessoais após covid-19

Todo o ser humano é biologicamente social, necessita de dialogar, de pertencer a grupos, de vivenciar experiências e de ter amigos com quem possa partilhar interesses e opiniões.

Alexandre Nunes
1 de Maio de 2020

Atualmente, perante o estado de quarentena, o individuo é obrigado a redefinir os seus valores, medos, ansiedades, crenças e rotinas.

O isolamento e o distanciamento social está a mudar a nossa forma de habitabilidade, desde o trabalho, o ensino, o abastecimento da casa, a ginástica, a sessão de terapia, os relacionamentos pessoais bem como outras formas de lazer, que intermediadas pela tecnologia protegem-nos e mantêm-nos isolados.

De certo, a sociedade sairá diferente da atual crise, novos hábitos serão adquiridos depois de semanas e meses de isolamento.

Novas plataformas na Web surgem e irão surgir cada vez mais para nos ajudar neste isolamento.

Vamos aprender muito, o desafio não é trabalhar em casa, mas sim desempenhar essas funções num ambiente psicológico adverso, no computador e com as novas tecnologias a pessoa tem de ter maturidade, confiança e senso de Intra empreendedorismo.

O mundo em que vivemos encolheu muito rapidamente e momentaneamente, e hoje é a tecnologia que nos permite manter as nossas relações interpessoais.

É estranho afirmá-lo, mas esta pandemia carrega um aspeto muito positivo para a humanidade, a reflexão sobre relações humanas, sobre afeto e ética. A importância de saber viver em coletivo de forma ética e sem egoísmos (vejamos recentemente as atitudes no consumo em supermercados e farmácias).

Ultrapassado o receio da doença e da morte surgirá na maior parte das pessoas a vontade de proximidade dos outros, irá impelir o desejo da vida, do prazer e de alguns excessos procurando encontrar um equilíbrio entre o Id e o Ego da psique humana, este é o ponto em que tomamos decisões baseadas na nossa intelectualidade, pela logica da racionalidade, bem como pelos conhecimentos que adquirimos ao longo de toda a nossa existência, valemo-nos das nossas emoções e sentimentos para avaliar as situações que nos rodeiam e consequentemente tomar as nossas decisões ao longo da vida.

É perante uma crise que o individuo se sente mais inspirado a elaborar condições para despertar o melhor que tem dentro de si, saindo de um estado de retraimento e experimentando um convívio amplo e coletivo.

As populações vão encontrar-se mais, brindar mais e abraçar-se mais.

Os cumprimentos sociais com os cotovelos não vieram para ficar, no entanto algumas pessoas obsessivas, fobicas, solitárias, viciadas nas aplicações irão manter uma maior tendência para o isolamento, para socializar apenas através das redes e saírem menos à rua.

De um modo empírico, é fácil perceber que as relações conjugais estão a passar por um momento difícil, não podemos prever se daqui a nove meses haverá um baby boom ou se aumentaram as taxas de divorcio, este é um momento de reflexão para muitos casais.

Muitos casais vão precisar de se reinventar e sobretudo comunicar, coisa que a maior parte não faz, estes poderão não resistir à proximidade em tempo integral.

É verdade também que os casamentos que sobreviverem à quarentena devem seguir mais fortes.

Cada vez mais jovens e sobretudo mulheres estão mais preocupados em investir nas suas carreiras profissionais do que constituir, manter ou aumentar a família.

Neste momento, em que a incerteza ocupa o lugar na forma em que o futuro é encarado, é a plasticidade do cérebro humano e a resiliência que advém de cada individuo que permite a criação de alternativas para ultrapassar a crise, e no final progredir.

O isolamento do mundo social, ao manter as pessoas dentro de casa, necessariamente as coloca numa convivência mais intensa e incomum na vida contemporânea.

O stress ao qual estamos submetidos durante este período, inevitavelmente, trás uma dose expressiva de ansiedade e em certos casos pode provocar reações mais intensas, como um pavor, em função das incertezas em relação ao futuro.

No caso da pandemia a melhor forma de limitar a ansiedade é viver o presente adotando medidas que nos dão a sensação de estarmos a contribuir para a solução, outras formas também podem passar por realizar algum exercício virado ao intelecto, produzir algum tipo de arte e manter as redes de afeto pelas redes sociais.

Todos somos promotores do bem-estar uns dos outros, precisamos de distanciamento físico, mas não de distanciamento de afeto.

Em todas as grandes epidemias da história há consequências comportamentais.

Após a Peste Negra surgiu o Renascimento e neste processo o ser humano foi revestido de uma dignidade e colocado no centro da Criação, e por isso deu-se à principal corrente de pensamento deste período o nome de Humanismo.

Podemos dizer que após esta pandemia irá surgir uma nova vontade de viver e de organização. O isolamento pode ajudar o casal na maioria dos casos sempre tão atarefado a reaproximar-se e a encontrar pontos de comunicação, no entanto se a relação “já não fluía” o período de isolamento pode revelar-se complexo e agressivo para o casal quer pelo desgaste associado ao isolamento quer pela incerteza associada ao futuro, pois hoje em dia os casais não estão habituados a partilhar tanto tempo o mesmo espaço.

O desespero piora a ação racional, os casais que consigam melhorar a comunicação tendenciosamente irão melhorar a relação.

O que destabiliza o ser humano é tudo o que evidencia a sua falta de controlo.

Teremos de acreditar, ter fé, confiar, reinventarmo-nos para percebermos que estamos todos no mesmo barco num mundo híper-conectado. 

Artigo em formato PDF

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