O Prémio Nobel da gaivota

Em Abril de 1907 nasceu um rapaz em Haia, na Holanda, chamado Niko.

André Pinheiro
1 de Julho de 2019

Ao crescer, sempre manteve um interesse pela natureza e animais, principalmente aves costeiras e peixes, que acompanhava nas praias e cursos de água típicos no seu país.

Durante o final da adolescência, enquanto se decidia entre seguir Biologia na Universidade ou seguir o seu próprio caminho, acompanhou um casal de biólogos que analisava e fotografava animais costeiros, tendo mostrado particular interesse em seguir a vida das gaivotas, nomeadamente a gaivota argêntea, o tipo mais comum. Ao estudá-las, o Niko apercebeu-se que tinham uma marca vermelha no bico, ao qual os filhotes pareciam reagir. Decidiu aproveitar os momentos em que os progenitores se ausentavam para realizar experiências, simulando a pinta com outras cores, mas os filhotes só reagiam quando esta era vermelha, associando-a aos pais e assim despoletando pedidos de comida. Entretanto formou-se mesmo em Biologia.

Após um período breve nos Estados Unidos, o agora adulto Niko decide regressar a casa, devido à proximidade da II Grande Guerra Mundial. Acaba mesmo por ser preso e passar 2 anos num campo de prisioneiros alemão, enquanto a sua mulher ficou em casa com o filho de ambos.

Após a Guerra, e enquanto dava aulas, regressou ao estudo do comportamento animal, nomeadamente às interações entre pais e filhos, tentando diferenciar entre o que estes aprendem dos comportamentos inatos. Disto passou para a análise de como o seu cérebro processa a informação, e como ela é estimulada. Conseguiu também provar, por exemplo, que as abelhas mostram claramente maior curiosidade pelas cores amarelas e azuis, mesmo em flores de papel, do que outras cores.

As suas pesquisas na interação entre elementos de grupos levaram o Niko, ou melhor, o Dr. Nikolaas Tinbergen, a ser galardoado com o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia, em conjunto com Konraz Lorenz e Karl von Frisch, pelo seu trabalho na deteção de padrões de comportamento pré-programados geneticamente. Este trabalho deu origem a muitos outros estudos aplicados também à população humana, nomeadamente as teorias de comportamentos organizacionais.

E tudo começou com gaivotas e um pequeno detalhe nos seus bicos, elas que estarão provavelmente entre os animais mais odiados em qualquer cidade costeira. Remexem o lixo, destruindo sacos e espalhando resíduos pela rua, enquanto procuram por comida. Os seus dejetos parecem-se com o sangue do monstro dos filmes Alien, com o seu efeito corrosivo.

Eu acho-lhes uma certa piada. Vejo-as como um animal magnifico pelo porte e envergadura, com uma reputação terrível simplesmente porque há demasiadas. Sem controlo populacional não há comida suficiente para todas, pelo que têm que procurá-la onde podem, como sacos de lixo ou roubando comida a turistas distraídos.

Há dias, reparei que uma gaivota que passeava perto de mim tinha uma marca vermelha no bico. De início pensei que fosse algum tipo de infeção ou doença, pelo que fui pesquisar, e foi assim que me deparei com a história do Dr. Nikolaas e o seu prémio Nobel.

Quantos leitores alguma vez tinham reparado neste pormenor das gaivotas?

Provavelmente muitos dirão “é só um pássaro estúpido e que estraga tudo”, é o normal.

Mas há cerca de 100 anos alguém se interessou por elas, e isso foi o início de uma pesquisa que levou a um prémio Nobel, e mais do que isso, a pesquisas que nos afectam a todos hoje, visto que o comportamento organizacional é um aspecto fulcral em qualquer empresa ou em estratégias de Marketing. Foi também um dos primeiros passos para as bases da programação neuro-linguística.

Que outros detalhes na vida corriqueira lhe passam ao lado? E na empresa? Quantos se apercebem de pequenas alterações de comportamento dos colegas mais próximos? Quantas vezes foi reportada uma redução de um dos KPI’s de produtividade que ninguém conseguiu explicar e atribuiu a "questões pontuais?" Ou quantas vezes uma quebra num KPI levou a uma análise longa e exaustiva, até se perceber que tinha sido causado por um pequeno detalhe?

Olhe à sua volta. Repare nos detalhes. Aperceba-se das alterações de comportamento, até mudanças no comportamento físico. A fenda que surge entre as sobrancelhas quando alguém fica preocupado. Olhos cansados depois de uma noite longa porque o bebé não deixou dormir. Pequenas coisas que influenciam o nosso comportamento.

Há 100 anos, um miúdo na Holanda reparou que algumas gaivotas tinham uma pinta vermelha no bico. E isso mudou todas as nossas vidas para sempre!

Artigo em formato PDF

Revista Digital Start&Go

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