Islândia – o sol da meia-noite

Em 2008, fui visitar o meu amigo Ivo à Islândia.

Vitor Briga
1 de Julho de 2019

O Ivo, português, tem uma relação muito especial com a Islândia. Começou por emigrar para trabalhar neste belíssimo país, no entanto, o seu lado curioso e aventureiro levou-o a aproveitar todos os momentos livres para descobrir os recantos e mistérios da ilha. Atualmente, partilha o seu conhecimento e as suas histórias, enquanto guia turístico, com grupos de todo o mundo. Poderão conhecer melhor a história dele no meu blogue 'Human at Work' ( human-at-work.com).  

A atratividade de um dado serviço, objeto ou situação é inversamente proporcional à sua disponibilidade

Depois de passar um dia em Reykjavík, apanhei um pequena avioneta para Akureyri, no norte do país, onde estava a viver o Ivo.  Decididos a explorar zonas da ilha que só estão acessíveis no verão, alugámos um carro e fizemos cerca de dois mil quilómetros mágicos com vista para vulcões e glaciares. Num desses dias, fomos a uma  vila numa zona remota da Islândia, localizada num fiorde do noroeste da ilha. Um belo lugar para se ver o sol da meia-noite, uma vez que era 21 de Junho e a luz do dia tinha 24 horas. Nessa pequena comunidade aproveitamos para ver este fenómeno único de o sol pousar sobre a linha do mar e voltar a subir pouco depois. O anoitecer e o amanhecer fundem-se criando inesquecíveis paletas de cores púrpura no céu e nas montanhas. Depois, e uma vez que era sábado, fomos beber um copo ao único bar do local. Foi interessante verificar que, apesar de ser de dia, todos os comportamentos eram iguais aos que se podem ver numa ‘noitada’ de sábado. E no que se refere aos excessos alcoólicos, os islandeses são campeões. Nesse bar estavam os personagens que tínhamos visto ao longo do dia: o empregado do hotel, o rapaz da bomba de gasolina, o responsável pelo posto de turismo… Foi exatamente este último, um jovem alto, de cabelo comprido louro e olhos azuis, que já bastante feliz com a sua caneca de cerveja Viking na mão se aproximou e nos perguntou como estávamos. Respondemos, ainda em estado de deslumbramento, que tínhamos acabado de ver o sol da meia-noite numa colina junto à costa. Eis a sua resposta: “Apesar de sempre ter vivido aqui, eu nunca vi. Estava em casa de uma amiga onde o poderia ter visto bem hoje, mas pensei cá para mim, que se f…! Fica para o ano, vou mas é beber uns copos…”.


Isto fez-me pensar que, de facto, aquilo que para uns é surpreendente e motivador, para outros pode ser comum e indiferente. Não depende apenas da qualidade do produto, mas depende em grande parte do contexto de cada um e do grau de originalidade e novidade daquilo que é oferecido. Outro fator importante a considerar é que temos tendência a desvalorizar aquilo que possuímos em abundância. Daí que o princípio da escassez, seja um dos princípios da psicologia de influência propostos por Robert Cialdini.

Este principio diz que a atratividade de um dado serviço, objeto ou situação é inversamente proporcional à sua disponibilidade. Cialdini concluiu nos seus livros, com estudos consistentes cuja leitura aconselho, que as pessoas tendem a valorizar mais aquilo que percecionam como sendo raro ou exclusivo (não importando se realmente é ou não). Ou seja, a escassez desperta o desejo: queremos mais aquilo que é único ou que só alguns podem ter.

Daí as estratégias publicitárias do "produto disponível por tempo limitado" ou "exclusivo para..." ou "tiragem limitada" ou, ainda, dos famosos avisos dos sites de reserva de hotéis, que querem acionar este princípio e fazer-nos agir, com os irritantes avisos a vermelho "rápido, já só resta um quarto a este preço!"

Importa ter esta consciência dos nossos automatismos mentais para saber contrariá-los quando o que verdadeiramente importa está em causa. Além disso, às vezes aquilo que parece abundante pode ser mais escasso do que pensámos. Há que saber valorizar o que vivemos, e o que temos, principalmente quando falamos de momentos e de pessoas importantes na nossa vida. Como escreveu G.K. Chesterton: "Para amar qualquer coisa basta perceber que ela pode ser perdida."


Inglaterra - O jovem nepalês que só tinha Tinder

Nestes eventos internacionais, (...) é mais interessante a oportunidade de conhecer colegas de distintos países e ver como cada cultura interpreta os temas e participa nas atividades

Estive, recentemente, em Manchester a receber um curso sobre gestão emocional e micro-expressões faciais. Nestes eventos internacionais, habitualmente, tão interessante quanto o próprio curso, é a oportunidade de conhecer colegas de distintos países e ver como cada cultura interpreta os temas e participa nas atividades. Este foi o caso: eramos doze formandos de onze países diferentes! Um dos meus colegas, que me chamou imediatamente à atenção quando entrou ainda atordoado pelo 


jet lag, era o Aaryan, um tímido jovem nepalês de vinte anos. Enquanto caminhávamos pelas ruas de Manchester após o curso, disse-me que era a primeira vez que saía do seu país. Era contagiante o seu entusiasmo quando exclamava, olhando para todo o lado, "Isto é tudo tão diferente do sítio de onde eu venho!"

No final do curso, propus que ficássemos em contacto nas redes sociais, ao que ele responde; "Não tenho Facebook, Instagram ou Twitter. Decidi fechar essas contas para me poder concentrar mais na realidade, e no que acontece nesta viagem, e não no telefone e em publicar posts". Claro que compreendi e pensei que, se calhar, ele está mais certo do que eu, que passo, provavelmente, demasiado tempo das minhas viagens no Instagram.

Reparei, no entanto, que mantinha a aplicação de encontros Tinder no seu telefone. A procura de 'amor' não se desinstala...

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