O BEO: o gestor da boa governança e ética empresarial

A figura do BEO – Business Ethics Officer surge no I Congresso de Ética nos Negócios em Tóquio, por analogia ao CEO – Chief Executive Officer.

Ana Isabel Lucas
1 de Julho de 2019

Neste congresso foi criado um centro especial de ética empresarial, onde se deu corpo ao papel dos BEO´s. Não são polícias ou padres. São conselheiros, especialistas em assuntos de ética e, idealmente, devem ocupar cargos de topo nas empresas.

A ética é uma parte da filosofia que estuda os comportamentos morais de um individuo, em grupo ou em sociedade. A ética não é a lei, mas a lei tem por base os princípios éticos.

A ética empresarial é um conjunto de princípios práticos que são identificados no âmbito da atividade empresarial, assegurando que o respeito e os interesses das partes interessadas estão conforme os valores sociais e culturais onde a empresa está inserida.

Mas a ética empresarial não se limita somente ao país de origem das empresas. Com a globalização é necessário pensar a ética de forma global. De acordo com a filosofia Kyosei, “uma empresa que merece existir é aquela que deve estar perto e coexistir com as pessoas de todo o mundo, para um futuro melhor”.

A gestão deve ser consciente e sensível às consequências. Não pode existir sem ter alma e ser mecanicista, mas sim ser uma gestão empática, sensível ao que faz e sensível às consequências dos seus atos para o meio social e natural. Produzir uma única unidade de um produto tem efeitos mínimos mas a sua produção em massa multiplica-os. É urgente aprender a conviver com o meio envolvente e não a dominá-lo!

Decidir de forma ética não é um processo simples, tem várias etapas e condicionalismos. Antes de mais, a ética nas empresas deverá partir da ação individual de cada colaborador, mas não invalida as responsabilidades dos gestores que devem ter um papel de promoção e manutenção do código de valores da empresa. Pelo contrário, este papel é primordial para criar uma cultura ética bem-sucedida.

Certos traços da personalidade individual são fatores responsáveis por condutas antiéticas. A ganância, a procura de benefícios económicos, a falta de competitividade, menor grau de instrução, a idade, entre outros, são preconizadores de comportamentos antiéticos.

Estudos realizados nos Estados Unidos revelam, que a ambição por lucros a curto prazo acentua-se nas faixas etárias com menos de 45 anos de idade, o que intensificou uma preocupação com as novas gerações de empresários que se formam. O esforço para conseguir uma cultura empresarial competitiva faz com que se negligenciem princípios fundamentados nas leis e na ética.

A preocupação com as questões éticas nos negócios não é nova mas carece de mais publicações e divulgação. Para formar boas gerações de gestores é importante investigar, pensar, ensinar e publicar mais sobre este tema.

A nuvem negra de escândalos que paira sobre Sillicon Valley mobilizou instituições de ensino na procura de respostas às preocupações verificadas. Atualmente, existem mais de 200 cursos de ética nos negócios, ministrados nos Estados Unidos.

A ideia é intensificar o ensino, dar valor e relevância às disciplinas de ética, como um primeiro passo para a mudança necessária.

Nos escândalos recentes dos gigantes tecnológicos de Sillicon Valley, o do Facebook que envolveu a Amazon, a Apple e outras empresas de tecnologia e o escândalo da Google, foram violados o direito à privacidade dos consumidores e colocaram em causa a autonomia e individualidade destes.

A cultura que caracteriza o Vale é objeto de imitação e inspiração para muitos empreendedores pelo mundo fora, mas o lucro a curto prazo leva os CEO´s destas empresas a pensar nas questões éticas mais tarde. A cultura que predomina é: “desenvolve agora, pede desculpas mais tarde”.

Não só de escândalos tecnológicos vive o mundo empresarial. Os maiores escândalos empresariais dos últimos 20 anos envolvem empresas do setor financeiro e tiveram um grande impacto na economia mundial: a falência do banco inglês Barings em 1995 e a falência do Lehman Brothers nos Estados Unidos que leva à crise e recessão de 2008. Em Portugal, o BES que chegou aos quatro cantos do mundo, defraudou várias empresas e clientes particulares.

Muito tem sido feito para consciencializar o mundo empresarial para os assuntos éticos. Por todo o mundo a comunidade científica organiza-se, investiga e promove sessões especiais em congressos e conferências sobre a ética nos negócios. Criam-se associações com o intuito de elaborar programas de ética e são introduzidas disciplinas nos currículos das instituições de ensino. Mas o impacto ainda não é relevante.

A prática revela que “fazer o mal” tem resultados imediatos e efeitos nefastos a médio/longo prazo. Se demora o mesmo tempo e são gastos os mesmos recursos a “fazer o bem” ou a “fazer o mal”, para quê “fazer o mal”, se o bem dá-nos um caminho para um futuro duradouro e bem-sucedido?

É urgente pensar a ética! É urgente formar e dar corpo aos BEO´s e destronar a cultura dos CEO´s brilhantes e sedentos de lucros a curto prazo, sem olhar a meios para atingir os fins.

Assiste-se diariamente a situações decorrentes de comportamentos antiéticos: subornos, chantagem, corrupção, extorsão, recrutamento e seleção sistemática de membros da família ou critérios de favoritismo, lavagem de dinheiro, uso impróprio de informação confidencial, discriminação, assédio moral e sexual, falta de segurança nos produtos, anúncio de falsos descontos, condições de trabalho degradantes ou ilegais, poluição ambiental, evasão fiscal, condições leoninas, etc.

A sociedade já não perdoa as maldades e a falta de ética. E exemplo disso são os casos: BES, Raríssimas e Berardo em que assistimos a manifestações dos públicos em força nas redes sociais e à perda da confiança nestas organizações.

Quando uma empresa é percebida como antiética, os seus produtos ou serviços são facilmente rejeitados pela sociedade. Instaura-se um ambiente interno de conflitos, o desempenho e a motivação dos colaboradores são fracos, comprometendo a sua imagem e reputação e, obviamente, a sobrevivência da própria empresa.

O uso de instrumentos éticos na gestão é um caminho para uma gestão sustentável e ajudam a desenvolver uma cultura ética.

As normas de responsabilidade social, a ISO 26000 ou a SA 8000, e ainda, a ISO 10001, Linhas de Orientação dos Códigos de Conduta nas Organizações, são excelentes instrumentos de orientação nas políticas e práticas éticas de uma empresa. São de caracter opcional e não possuem certificação, funcionando como um livro de receitas para criar a base inicial de ética empresarial.

A ética é a base do desenvolvimento sustentável e da responsabilidade social das empresas. Não pode existir inovação sem ética, pelo que deve estar presente desde a ideia de negócio. 

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