Look back, move forward

American Girl. Talvez seja o único que não sabia da existência da mesma, de qualquer forma, julgo merecer uma reflexão escrita.

Rui Pedro Oliveira
1 de Maio de 2019

Não, não é nenhum tipo de boneca que algum leitor masculino mais criativo possa já estar a imaginar.

É uma boneca normalíssima, que só se vende em três países. EUA, Dubai e Bahrein.

O preço da boneca é pesado sem ser exorbitante, ronda os 100 dólares. Mas o que faz esta boneca ser tão especial em meninas de todo o mundo e que permite ter uma loja do tamanho de um hipermercado com elevadores para os diversos pisos na exclusiva Rockfeller Plaza em plena 5ª Av. de Nova Iorque que vende um monoproduto com a mesma cara, embora com surpresas?

Imagine agora o leitor masculino mais criativo supracitado, uma loja nas mesmas localizações e moldes em que o produto era uma lata de cerveja da mesma marca e sabor dividido por estas dimensões e que iriamos personalizar.

A questão é que esta boneca é exclusiva. Não no preço como referi, mas quem tem uma é porque a comprou num desses três países ou alguém foi lá e a trouxe. E isso torna apetecível... A exclusividade a um preço módico, como outras marcas de origem americanas fizeram no passado, Polo Ralph Lauren, GAP, Abercrombie & Fitch são alguns exemplos a par de quando os Swatch só podiam ser comprados na Suiça e a famosa t-shirt clássica Hard Rock Café London, só podia ser adquirida na original loja perto de Hyde Park Corner.

Se uma miúda tem uma boneca porque a ofereceram e vive num dos outros 189 Estados soberano acreditados pela ONU, não é nenhum pesadelo. Se por ventura os seus pais tiverem possibilidades e a levarem à loja, aí pode ser um problema dependendo do recheio da sua carteira. É que a American Girl tem centenas ou milhares de acessórios. Desde uma coleção de óculos de sol com algumas marcas conhecidas associadas, a fatos espaciais da NASA. A loja tem espaços para festas de aniversário, tem dezenas de postos de pagamento e tem um cabeleireiro para as bonecas. Sim, tem cadeiras de cabeleireiro rotativas do tamanho das bonecas, tem algumas cabeleireiras devidamente ornamentadas a trabalhar e até aquele secador de alta potência para penteados especiais que parece um capacete espacial num tripé como eu via nos cabeleireiros do lado de fora. Tem um preçário que vai de 5$ a 25$ para os “Hair Styles”, custa 5$ pintar as unhas às bonecas e até se pode colocar um piercing no ouvido por 16$. Claro que também há a hipótese de a criança ficar igual à boneca (e vice versa) aí os preços são sensivelmente 3 vezes superiores, incluindo o do piercing, claro.  

A fauna de mães mais histéricas que as filhas no cabeleireiro literalmente a brincarem com as duas bonecas (porventura esquecendo-se que uma delas é real) contrasta com o ar adormecido dos papás nos sofás, se houvesse um bar com as cervejas das American Girls para os pais poderiam estar mais despertos enquanto esperavam que acabasse a sessão de cabeleireiro, não obstante já saberem o que os espera pois, claro, este “salon” só aceita as suas clientes de plástico de 46 cm com reserva antecipada.

Também há a possibilidade de se fazer cirurgias estéticas à boneca, mas é um departamento à parte e os preços não foram revelados, não me admirava nada que pudessem fazer o mesmo às pequenas donas das bonecas pela variável “vezes 3” dólares como nos serviços de estética, e com mães a acharem “um must” a primeira cirurgia plástica da filha com 10, 9 ou 6 anos.

Também uma American Girl pode usar cadeira de rodas ou ter uma perna engessada.

Sabia haver tudo que a mente imaginativa e criativa de qualquer empresa pudesse entender. Facto é que a Mattel que é uma grande empresa produtora de brinquedos a tenha adquirido, e não faço ideia se a boneca gera vários lucros ou o oposto, o que é certo é que esta boneca já tem 33 anos de existência e mesmo que não seja a mesma a fonte do lucro em si, a loja parece ser.

Hoje em dia, falar de crianças que ainda brincam com bonecas parece paradoxal e antagónico com o facto de estar previsto para daqui a 3 anos haver 43 bi de “devices” ligados à internet, mais do que 5 aparelhos por pessoa no planeta nessa altura.

As crianças serão as mesmas, e a maioria delas, cerca de 70% que têm 10 anos atualmente, ainda não tem o seu emprego daqui a sensivelmente 10 anos sequer inventado... Mas que ainda é possível transformar num produto do passado que aparentemente é uma simples boneca e fazer hoje em dia uma fonte de receita e cobiça, é. Se são os melhores meios para tal... São os meios que o mercado compra. Goste-se ou não da forma de chegar (neste caso com bons e mais exemplos a meu ver) a esse pequeno (em idade) público.

PS: Soube ao fechar o artigo que afinal também já existe o Boy American Girl.

Look back, move forward.

 Artigo em formato PDF

Revista Digital Start&Go

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