Ninguém nasce ensinado

André Pinheiro
1 de Maio de 2019

Eu não gosto de cantar. Ou melhor, não gosto de cantar em público. Muito menos num karaoke, ainda que ocasionalmente seja arrastado por amigos para essa forma que os orientais desenvolveram para promover a humilhação pública dos ocidentais. Mas creio que toda a gente gosta de cantarolar as suas músicas favoritas, mesmo sem saber a letra.

Eu opto por fazer isso no trânsito, onde evito causar desejos suicidas em potenciais ouvintes. Encontrando-me sozinho no carro, escolho uma música, ponho o volume bem alto (com as janelas fechadas, entenda-se), e dou asas às cordas vocais. E é também uma óptima técnica para me manter desperto ao regressar solitário de uma noite mais longa. As opções musicais variam de acordo com a disposição, mas já percebi há algum tempo que para combater o cansaço o melhor repertório vem de música pesada. Mas noutras ocasiões também gosto de assassinar algumas árias de ópera conhecidas, como a Nessun Dorma, da ópera Turandot (Puccini). 

Mas se opto por apenas fazer isto em privado, é porque tenho a perfeita noção de que “assassinar a música” é o termo correto, porque não sei cantar. Não sei, nunca aprendi, não tenho interesse em aprender porque não tenho jeitinho nenhum para a coisa. Mas há quem tenha.

Desde que surgiram programas televisivos em que perfeitos desconhecidos podem candidatar-se a mostrar os seus dotes (geralmente musicais) ao mundo, têm surgido histórias de sucesso de pessoas que vindas do nada se revelam cantores de excepcional qualidade. Histórias como a de Paul Potts, por exemplo, um técnico de uma loja de telemóveis que se revelou um excelente cantor de ópera, e ganhou a primeira edição do concurso Britain’s Got Talent em 2007, precisamente com a sua interpretação da ária Nessun Dorma. Ou a Susan Boyle, que dois anos depois era uma desempregada de Glasgow quando ganhou o mesmo concurso com os seus dotes vocais que se tornaram virais, ao surpreender todos com o seu aspecto simples.

Mas tanto um como outro não eram cantores de chuveiro, muito menos de carro. Paul Potts tinha tido lições durante anos, e fazia parte de um grupo de ópera amador, onde tinha já participado com o papel principal em vários espectáculos, para não falar da masterclass de canto que teve em Itália com um tal senhor chamado Luciano Pavarotti. Já a Susan Boyle cantava no grupo coral da igreja desde pequena, tendo também aulas e fazendo parte de um grupo de teatro em Edimburgo. Tinha inclusive gravado uma cassete que enviou para editoras, no final dos anos 90, mas sem sucesso.

Note-se que com isto, não digo que não devessem ter participado no programa! A verdade é que um era um “simples” operador de loja, e outra era uma “simples” desempregada, e ganharam com todo o mérito.

Mas não nasceram ensinados.

O talento inato que possuíam teve que ser trabalhado, optimizado, melhorado. Tiveram que ter a formação adequada.

Quantas vezes nos deparamos com operadores ou colegas que demonstram muito jeito para algumas actividades, mas pouca estrutura na hora de realizá-las? Quantas vezes temos pessoas a nosso cargo que, com um pouco de ajuda, poderia tornar-se muito mais eficiente e ajudar a empresa a melhorar?

A lei 7/2009 (Código do Trabalho), no artigo 131º indica que pelo menos 10% dos trabalhadores devem ter um mínimo de 35h anuais de formação contínua. O objectivo disto é garantir não só que as pessoas evoluam para poder ajudar a empresa a obter melhores resultados, ao ganhar alguma especialização, mas também a ajudar a própria pessoa a tornar-se um melhor profissional. Já a norma ISO9001 sugere que a organização garanta a formação adequada aos seus recursos, numa lógica de melhoria dos processos, e avaliando a eficácia da mesma para perceber se foi adequada.

Se temos uma equipa a nosso cargo, depende de nós garantir que os seus membros se tornam cada vez mais eficientes. E para isso é necessário que estejam a par das tendências da área, ou de novos requisitos, ou até de novas tecnologias que possam ajudar a melhorar o seu desempenho. Uma simples visita a outra fábrica, numa lógica de benchmarking, ou uma visita a uma feira para avaliar a concorrência, podem ser consideradas como formação.

Ninguém nasce ensinado, mas com a formação adequada, todos podemos ser melhores no que fazemos E não raras vezes, evidências de uma aparente incompetência não são mais do que reflexos de falta de formação específica. E a falta de competência de um operador é, por sua vez, reflexo da falta de competência da empresa nos seus processos de gestão.

Artigo em formato PDF

Revista Digital Start&Go

Últimas