GESTÃO DE COMPRAS “BRAIN BOXES” - A ÚNICA CERTEZA É QUE O FUTURO VAI SER DIFERENTE

As organizações ou instituições que atuam no campo dos grupos de interesse da função de compras, desenvolvendo, produzindo e difundindo conhecimento de excelência para elevar e promover o progresso / modernização da profissão, são frequentemente

Eduardo Santos
4 de Agosto de 2015

As organizações ou instituições que atuam no campo dos grupos de interesse da função de compras, desenvolvendo, produzindo e difundindo conhecimento de excelência para elevar e promover o progresso / modernização da profissão, são frequentemente referenciadas como “brain boxes” das melhores práticas de negócios de compras, como exemplo a federação internacional IFPSM (International Federation of Purchasing and Supply Management) e a rede multidisciplinar IPSERA (International Purchasing and Supply Education and Research Association), composta por académicos e profissionais especialistas e organizada em seis centros de excelência e quinze plataformas regionais descentralizadas de intercâmbio e difusão de novas ideias e conceitos.

A função compras numa empresa deve estar intrinsecamente associada à gestão das estratégias, condições e termos de abastecimento de produtos, serviços, bens e equipamentos necessários para o funcionamento direto da cadeia de valor do negócio ou para suporte à sua operacionalização. No âmbito da evolução da profissão de compras, revela-se fundamental sistematizar e destacar "grandes tendências” com influência no quadro de atuação da gestão de compras.

Como “grandes tendências” consideram-se movimentos económicos, sociais e culturais amplos que ocorrem através de fronteiras internacionais e têm um efeito ao longo de mais de uma década, sendo determinadas e definidas mais pelo seu grau de distribuição no horizonte temporal do que pela sua gravidade ou impacto no curto-médio prazo. Neste quadro, a reflexão específica sobre a visão e projeção da experiência de futuro da função compras, antecipa tendências que irão confrontar as empresas e os responsáveis de topo com desafios e novos paradigmas nos próximos anos.


 “Grandes tendências” com Influência na Gestão de Compras

O cenário de recessão que predomina nos últimos anos, veio amplificar o impacto de questões económicas e ambientais (ex. primavera Árabe, terramoto no Japão), a sensibilidade ao fator risco nas cadeias de abastecimento e a forte competição por matérias-primas, colocando o debate da gestão de compras cada vez mais na agenda dos responsáveis de topo.

No âmbito dos principais estudos globais na área da gestão de compras, são consideradas “grandes tendências” relevantes as alterações dos centros económicos de poder mundiais, como exemplo o crescimento do continente asiático na cadeia de valor e consumo, mudanças geopolíticas e macroeconómicas (ex. os países catalogados como “next eleven”), escassez de matérias-primas, diversificação da oferta das empresas de forma a endereçar requisitos locais, responsabilidade social corporativa e princípios éticos pelos direitos humanos e ambiente (voz da “consciência comercial”), clima de insegurança devido à instabilidade política e recorrência de desastres naturais, inovação tecnológica e mudanças demográficas.

Estas “grandes tendências” confrontam os líderes empresariais das principais regiões económicas do mundo (EUA, Europa e Ásia) a equacionar e implementar opções para a função compras, de forma a vencer os desafios e gerir os impactos que as “grandes tendências” irão ter sobre os negócios. O histórico mantra “menor custo, mais rápido e melhor” dos profissionais de compras está a tornar-se rapidamente obsoleto, emergindo um ecossistema onde os fornecedores parecem infiltra-se na organização levando a mudanças significativas no desempenho do trabalho de compras.


Visão, Experiência do Futuro e Tendências na Gestão de Compras

No futuro, a gestão de compras terá uma maior definição e dimensão de serviços de outsourcing envolvendo parceiros especialistas vs. opções de serviços de compras “in house”. Os gestores de topo irão também dar uma importância crescente à função compras, estendendo o seu âmbito estratégico e o seu focus financeiro, nomeadamente ao nível da performance do working capital e cash flow.
A gestão de compras vai focar-se mais na análise preditiva das necessidades futuras vs. retrospetiva da despesa, recorrendo a modelos para, como exemplo, projetar falhas de qualidade de produto / serviço do fornecedor mais susceptíveis de ocorrer, indicadores de performance dos fornecedores que medem fatores de maior sensibilidade a exigências específicas dos clientes finais da empresa. O reforço do focus na previsibilidade levará ao crescimento de comunidades de negócios de compras e informações em tempo real sobre o nível de satisfação / desempenho, etc. replicando-se a experiência de outras comunidades bem sucedidas noutros sectores de negócio, como exemplo LinkedIn, eBay e Amazon.

O nível de informação de gestão sobre as estruturas de custos das cadeias de abastecimento, riscos e indicadores esperados de performance vai criar visões mais estruturada do negócio, uma espécie de “inteligência instantânea” com potencial sem precedentes de sintetizar informação analítica para apoio à tomada de decisão. Em simultâneo, a evolução das tecnologias e sistemas de informação vão proporcionar à função de compras um ambiente massificado de dispositivos móveis, onde um comprador ou fornecedor poderá observar processos de produção / montagem das soluções, acompanhar operações logísticas de movimentação das mercadorias e processos de inspeção da qualidade num país distante, mecanismos válidos de qualificação dos fornecedores a partir do seu escritório, etc.

O “reinado da colaboração” na cadeia de abastecimento irá estender as organizações e também catalisar a inovação com origem na base de fornecedores, assistindo-se à alteração do paradigma do modelo “inovação-in” para "comunidades de inovação” em redes integradas de fornecimento, como exemplo os carros eléctricos, baterias para estes carros e respetivas infra-estruturas de serviços de suporte aos condutores. As compras irão ter um papel de empreendedor ativo no processo de concepção e desenvolvimento tendo em conta as perspetivas, parceiros / fornecedores, empresa e clientes, consubstanciando o conceito de “design to value” introduzido nos últimos anos no sector automóvel (ex. grupo VW / solução teto solar panorâmico).

A colaboração levará à optimização de recursos e integração de funções, e em simultâneo ao reequilíbrio do poder dos fornecedores e risco comercial dos compradores. O paradigma dos “fornecedores venderem aos compradores”, vai dar lugar a iniciativas dos compradores na promoção de clusters de fornecedores e dos seus parceiros, como exemplo o cluster nacional do IKEA e o roadshow de promoção e apoio à internacionalização das empresas fornecedoras da EDP.

As soluções de negócio vão substituir os requisitos tradicionais dos bens e serviços de compra, predominando relações com fornecedores que ofereçam soluções totais, como exemplo optimização de produtividade, redução dos custos totais e desenvolvimento e implementação de melhores práticas (ex. optimização da produtividade da categoria indireta de impressão, adoptando soluções de centro de cópias de elevado desempenho vs. requisitos de impressão individual).

O despertar geral em torno da gestão de riscos das cadeias de abastecimento, conduzirá a um maior consenso de como medir o risco, promover standards, partilhar informações de comunidades em rede, recorrendo a repositórios de dados para a avaliação do risco operacional. O levantamento e avaliação dos riscos será incorporado aos processos, boas práticas e sistemas de informação de suporte às compras das empresas.

As economias emergentes vão posicionar nos próximos anos no campo global de comércio muitos atores / empresas bem sucedidos, de crescimento rápido e culturalmente diferentes, levando a um aumento da complexidade na seleção de fornecedores e cadeias de abastecimento, e exigindo à função de compras maior maturidade e um melhor radar para despistar os respetivos fatores de risco. Por outro lado a partilha de risco e valor entre os parceiros levará a equacionar novas formas de motivação contratual, tornando redutoras cláusulas clássicas de proteção legal como por exemplo os trinta dias de cláusula de saída de contrato e estimulando maior disciplina na qualificação inicial / informação ao nível das práticas de sustentabilidade dos fornecedores.

Em síntese, os negócios de compras irão tornar-se mais globais e transparentes, reduzindo a importância da “arte negocial” de compras, e reposicionando a proposta de valor da função de compras em selecionar o portefólio mais adequado de fornecedores, catalisar a inovação e estabelecer relações comerciais que potenciem vantagens competitivas do negócio ao longo dos próximos anos.

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